domingo, 25 de novembro de 2012

O Turco e Eu

Ipanema
High Society
High? - I´m not sure



O olho turco - dizem que espanta o baixo astral e atrai as forças do Bem. Tomara

À busca de emprego. Tenso. 
Jornal, em papel, o bom e velho caderno de ""Classificados" - procura-se secretária de alto nível; prática em atendimento, organização e atas de reuniões, contratos. Redação Superior. Inglés e Espanhol. Ipanema, endereço tal, envie curriculo.
Maravilha, sou eu. De salto, um metro e oitenta, e modéstia à parte, altíssimo nível emocional. Atendo público, clientes e inimigos como ninguém. Organizo reuniões e eventos como ninguém. Analiso um contrato como ninguém. Redijo... bem, redijo como eu mesma, e tá cheio de gente que redige igual a mim, ou tenta, não é mesmo? Bueno, muy bien, I speak english and spanish. And, oh yes, I love Ipanema.

Fui-me, equilibrada em salto, alongada na saia, solta na blusa. Bolsa, colar discreto. Aplique. Óculos para o personagem secretária. Personagem pronta, abre a cena.

Eis que fui recebida por um empresário famoso, nome impossível de ser revelado, processos e chantagens me aguardariam antes que 2013 emplacasse no calendário. O homem construiu um império, inventou musas e marcas, fez e aconteceu. Imaginei que quisesse agora, a esta altura de seus quase oitenta anitos, uma secretária, um braço direito.

Mas não era bem isso.

Educado, levantou-se para me receber, apertou minha mão com firmeza.
Acomodei-me, muito ereta e distante na mesa à sua frente. Evitei olhar para seus cabelos tingidos de louro, e para o rosto muito envelhecido e cansado. Concentrei-me, firme, em seus olhos. Olhos de turco.

Pergunta 1. "Você é casada?" Assim. De cara.
Resposta Afirmativa Positiva Alerta e Operante 
Pergunta 2. " Bem, então, vai depender de você. Tem disponibilidade total? Acordar na minha casa? Fim-de-semana em Angra? Passaporte ok?

Daí em diante o que sucedeu foi inexplicável. Um senhor capaz e produtivo, precisando de uma babá 24 horas. Ou mais que isso. 
Eu teria que estar à sua sombra, dia e noite, noite e dia. De prontidão ao seu acordar. Estar impecavelmente arrumada, porque há fotógrafos, e ele esclarece que gosta de ser visto e fotografado ao lado de mulheres bonitas e cobiçadas. Baila no ar sua primeira pérola: "Um homem que  tem ao seu lado uma mulher que não é cobiçada, é um bosta". " O homem é que faz a mulher. A mulher bonita tem por trás um homem que a adora. O homem existe para dar prazer e alegria a mulher". Dispara: " Eu crio laços com as pessoas que trabalham para mim. Você vai entrar na minha intimidade, saber de meus ganhos, de minhas obras de arte, de meus bens. Conhecerá tudo de mim, sobre mim, meus gostos, meus hábitos. Minha namorada vai ter ciúme de você, mas não se importe, terá compensações. Eu te darei presentes." Pausa. "Não sei não...  Seu marido vai aceitar que trabalhe comigo?  Tem que jantar comigo no Copa, depois subir na minha casa, e só ir embora quando eu me recolher.  Será que ele aguenta?"

Ele, eu não sei, mas eu, eu não, caríssimos. Eu não aguento.

Pensam que ele parou? Não. Seguiu nesta linha e eu ouvi tudo calada,estupefata. O grande empresário da moda e do estilo- de uma Ipanema muito rica - em busca de uma governanta à moda do coronelismo: dedicação integral e renegação ao que não seja Ele. Alto lá! Pagará com vários benefícios materiais. Namoradas, amantes e secretárias não bastam para este super hiper ego. O sheik, eterno sheik, quer mais seres humanos à sua disposição. É preciso ter uma moça culta, com atributos vários, ao alcance de sua voz, desinibida, ao alcance de seus pensamentos e de sua mão. E tem que ser incansável. Bem, Senhor Turco, não é para mim.

Esta que vos fala, caríssimos, procurava somente um emprego. De Segunda a sexta, ou a Sábado, quando necessário fico até mais tarde em seu endereço comercial, senhor, não em sua sala de estar ou no seu quarto de televisão. Não, prezado representante das Índias Comerciais, administrar seu harém não é meu objetivo de vida;  nem que o senhor me pague os tais 3 mil em carteira, e 3 mil por fora, e outros 3 mil em presentes e perfumes e sapatos e bolsas. Não senhor. Não abro mão de tomar café da manhã com meu amado, e que seja meu o beijo de sua boa noite. Não abro mão de assistir seus shows, de ouvir seus ensaios, de assistir seu processo criativo de composição. Não abro mão de levar meus filhos ao cinema no fim de semana, e de entrar com eles no mar, esse mesmo de Ipanema, onde o senhor manda e desmanda. Na verdade, eu não abro mão de viver.

Além do mais, Senhor Turcão, o senhor foi felicíssimo em sua última colocação: " Você, Bettina, não seria feliz ao meu lado". Acertou mesmo, e explica, em lógica de sua autoria - " Você está muito presa neste seu relacionamento, acredita nessa ficção que é a fidelidade. Uma mulher da sua idade já devia saber que a fidelidade é uma ficção. Essa menina que vendeu a virgindade pela internet, sabe? Ela fez muito bem. Quantas são comidas pelo primo, de qualquer jeito, sem carinho, sem cuidado e ficam largadas no mundo? Essa ganhou dinheiro, menina, e dinheiro é fundamental. Mais que beleza, dinheiro. Eu falei outro dia para um amigo meu. Estou cansado de ver mulheres nuas. Agora quero ver mulheres muito bem vestidas, com griffes, muito bem arrumadas. Chega de mulher pelada, é vulgar, uma mulher não pode jamais ser vulgar.  E você precisa se desamarrar, se soltar dessa sua ilusão para alçar outros mundos, mas vai ficar olhando o relógio e dizendo para mim que tem que ir embora, que seu marido te espera, que vem te buscar, e que você quer ir". "Não, Bettina, isso eu não quero. Não daremos certo nós dois."

Completamente incrédula com a descrição dessa relação que nunca existiu e que jamais existirá.  Relação concebida pelo olhar delirante desse senhor, que a avaliou e dela declinou. Não é o que Ele queria. 

Assim por Ele dispensada, face à minha constatada incompetência em corresponder a tais exigências, adiantei-me e me despedi. Levantei e ficou claro que o venço em pelo menos 10 centímetros de estatura,  para não falar de outras alturas imensuráveis. 
- " Sr. Turco, de fato. Eu vim até aqui procurando trabalho, e não outra vida. Sou muito muito feliz com a minha vida, sem 3 mil disso, 3 mil daquilo e mais 3 mil sei lá de quê; sou dona do meu tempo, de meus pensamentos, e de minhas ações. Sou fiel e não posso ser diferente do que sou. Com todo respeito à sua obra e aos seus feitos, e ao empreendedor que o senhor é, e por tudo que o senhor fez pela economia do nosso Rio de Janeiro, eu peço que se houver outra ocupação na sua empresa, aí sim me chame.".

O que ele disse? " - Bem. Agora, menina, agora você me encantou. Uma mulher deve saber se comportar. Veja Brunet. Comportou-se impecavelmente e hoje está casada com um dos homens mais ricos do Brasil."  Levantou-se de novo, estendeu-me a mão e disse que qualquer hora me liga para gente jantar e se conhecer melhor.
Retribui o aperto de mão, entre surpresa e auto controlada. Parti.
Valha-me , Olho Turco, e proteja-me da loucura que assola o Bicho Homem.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Festa do Primo

Rio de Janeiro
Tem primo da Zona Norte a Zona Sul





Alegria no salão nobre da ala  nobre da nobre Zona Norte - click mágico de Ana Schnneider


Muito que bem.

Vivo na Zona Sul desde que me entendo por gente, e adoro uma esticada até a Zona Norte. É diferente, é mais família, é mais farta, é mais simples. Região sem muito comprometimento com o politicamente correto, encontramos criaturas menos conflituadas. São o que são, e ponto. Um mínimo de questionamentos existencialistas,e o destino flui melhor. Vale a pena atentarmo-nos aos resultados deste comportamento mais despojado. Menos vaidades, e mais alegria.

E assim, imbuída do meu habitual espiríto observador, cheguei à festa. E que festa animada - convidados chegando em grupos, sorrindo, presentes na mão. Cheiro de comida pelo ar, temperos, fumaça. Vozes altas, gargalhadas, abraços. O salão  bem decorado. As mulheres enfeitadas.

Pausa aqui. Mulher quando se enfeita, quer guerra ou amor, dizia meu avô. Neste caso, nossa protagonista de hoje queria os dois, e mais ainda. Esse plus que Ela queria era o o Primo.

E Ela chegou esfuziante, nesse climão descontraído e efervescente que o caríssimo leitor já imaginou, e melhor do que eu possa descrever.  Para ajudar sua privilegiada imaginação, acrescento que nossa protagonista é uma mulher de seus quarenta anos, enfiada no seu mais justo tomara que caia, arrematado por uma boa minissaia de babados.  Em jeans manchado.  Tudo justo, apertado, e  apertando, e  subindo. Equilibrada numa sandália anabela, faria inveja a um malabarista.  Aliança de ouro no dedo da mão esquerda. Casada, senhora de família,  acompanhada do marido e da filha. 

No ponto diametralmente oposto ao de sua entrada, repousava, placidamente,  o protagonista masculino deste relato. O Primo. Um bom malandro, manso, sossegado com sua cerveja. Pouco vi de seu rosto, aliás, dele ninguém viu os olhos, ocultos por óculos escuros. Conveniente proteção - o olhar muito revela, e muitas vezes o mais aconselhável é escondê-lo.

Ela avançou em Sua direção,  aos gritinhos de "ai meu primo, primo do meu coração, há quanto tempo não nos vemos!!!!! Me dá uma gelada aí." E aí Ela ficou. Veio vó, veio filha, veio marido. Veio garçom avisando que o almoço estava servido, veio o marido dizendo que guardou lugar ao lado dele, veio filha puxando a mãe pelos babados da saia. Nada. A mulher estava enraizada ao lado do primo. Música brasileira, italiana, samba, kuduro, forró, Kid Abelha, jazz, Tim Maia. Tias, madrinha, vieram chamar os primos para dançar. Qual o quê. A dança não interessava, comida não interessava, a fiha não interessava. O interesse era um do outro, mútua e intensamente.
E o marido, que marido? Aquele senhor, ali, perdido, deslocado, desenxabido? Chegou a encurvar. Por fim uniu-se a um grupo de senhores do outro lado do salão, mas não se concentrava na conversa. Pescoço espichado na direção do conhecido tomara que caia.
A festa seguiu. Veio parabéns, gente chegou, gente saiu, e Ela com o Primo. A filha nunca mais se viu, e Ela com o Primo.
Chegada a hora de ir embora. O marido chama. Ela diz, vai indo, vou depois, com meu Primo. 

O marido foi embora, arrastando pé e saudade. Saudade da festa que para ele não houve, que festa assim é partida, é desencontro, é despedida da ilusão. Festa assim é mais, é encontro com a verdade, a verdade que sempre aparece - há pessoas a quem pode-se oferecer aliança, certidão de casamento, casa comprada e bem montada; mas delas não se compra o coração, e escolhem friamente a hora de revelar-se.
A vergonha pública é doída, é mais solitária. Estar só em meio a uma festa é assistir a um filme, incrédulo e impotente diante da sucessão das cenas. Sem controle sobre os fatos, o marido foi-se.
Se ele vai perdoar, eu não sei.
Se o Primo vai prosseguir com Ela, eu não sei.
Mas que Ela quis ficar com o primo e ir depois, eu sei, Ela sabe, Ela mesma disse. Quem estava perto, ouviu, e quem ouviu e viveu um pouco sabe que depois é interrogação, é imprecisão, é talvez.
Depois pode ser, pode não ser. Ouso dizer que o Depois é um tempo inexistente -  não existe, como sabemos se vai existir? O que existe, e vemos, é o agora, é o hoje, é o marido chamando, e Ela dizendo não.
A festa acabou, e Ela ficou com o primo.
Caríssimo, há coisas que não se esquece. Não esqueço o andar deste marido, derrotado, derrubado no salão, partindo só, passos a frente da filha.
Não esqueço o primo, pimpão, inabalável, achando tudo lindo, rindo, mostrando os dentes, bebendo, encostado na pilastra enfeitada com bolas coloridas e flores variadas.

E pensei com os meus botões: Foi aniversário de quem mesmo? Essa festa foi é deste primo.

NOTA: Na Zona Sul tudo isto também teria acontecido, mas ninguém, nem eu, teria visto.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O beijo na escada

Uma nega
chamada
Santa Tereza

Amanheceu uma segunda feira
em Santa Tereza.

Horários corridos
Filhos
Estribilhos

Corre pega a bolsa
Agenda, celular, chave.
Brinco!
Lembra do bombeiro
deixa a chave de volta com o vizinho
Fechou o gás desligou tudo
Olha o dinheiro da empregada.
Olha essa sacola  nao vale, tá furada
Anda a hora que a hora passa

Hora passa hora passa hora passa

Corre corre correria da manhã
corre, salto alto para descer a escada? Segura

Segura que essa escada  liga, em flor, o ninho ao asfalto;
o paraíso ao trilho;
escada íngreme, firme,
escada de cimento
rolante e fixa
estática e infinita

Sigo então sem muita poesia
escada abaixo e tarefas acima,
que a hora passa a hora passa a hora passa
passa a hora passa manhã lá foi-se o dia

ôpa ôpa ôpa
pára tudo.
Eis que nessa escada tem ele.
Ele, que pára a hora
pára o triho
muda o caminho.
Pára a infinitude útil ou inútil da poesia

Sim, ele parou também a escada
estancou essa doida e necessária correria.
Segurou minha cintura com o poder manso dos mais honestos
Segurou minha pressa com o controle tranquilo dos íntegros

Segurou em suas mãos, como sempre fossem seus, o calendário e o meu destino.

Olho no olho
Boca na boca
Beijo com beijo
Língua quente.
Gosto bom de dente de saliva
Gosto cheiro sabor de alma nova
de alma viva

Já não é mais segunda, terça ou sexta.
Eu até então tinha quarenta e dois
e ele, um pouco mais.
Mentira.
Desci a escada com quinze anos.
este foi meu primeiro beijo,
eu era virgem,
e ele era o prìncipe herdeiro.







Perigo à vista
Rio de Janeiro
Mundo inteiro
Sem medo






O  tempo passa para ensinar, mas é preciso aprender.
Aprendi que escrever é perigosíssimo. Pode ofender, bajular; pode vir a ser ignorado ou copiado (perigoso para o escritor, mortalmente atingido por estas possibilidades).

Tive bons professores este ano: um senhor magoado com minhas espontâneas letras; susto! Ameaça, tira do ar, deixa no ar, processa, perdoa, releva. Censurado post.
Professorinha sem vergonha que surrupiou sua mais humilde colega, assim, na mão grande. 
Professorzão pós graduado, doutor na malandragem, que volta e meia rouba alguns parágrafos, muda um adjetivo, e pronto: assina. Com força e com vontade.

E a solidão? E acima de tudo, escrever é um ato solitário. Isolador.

Outro perigo terrível, esse da solidão. É esse medo que nos ronda e que nos apavora; é este nosso impulso diário em busca do amor verdadeiro - delicioso remédio, bendita solução. Onde há amor verdadeiro não há solidão. A solidão é o preço que pagamos, nós que escrevemos. Somos egolátras e nos alimentamos do prazer de escrever; o preço deste prazer é exorbitante. O monitor é nosso Muro de Berlim, antes da queda. Impenetrável.  Ficamos entrincheirados por trás deste escudo eletrônico, e nada e ninguém nos alcança. Saímos do mundo real e avançamos, hipnotizados, por um mundo inteiro a dentro.  Sim, a dentro, para dentro, por dentro - as palavras saem do mais profundo recanto do coração. Vamos até lá para buscá-las, e o caminho é estreito.
Para nos seguir? Ha Ha Ha. Só quando permitimos. Somos egoístas com nosso bem imaterial - a idéia, que se concretiza em palavra digitada. Antes de liberada para outros olhos, a palavra concebida e digitada é exclusivamente nossa, não dividimos, não emprestamos, sequer a pronunciamos, para que possamos mais acalentá-la em nosso ventre, como uma criança sendo gestada.

Mas como a criança, como o fruto, como tudo que há no planeta, uma vez parido não há retorno. Será lido, será mal interpretado, será bem sucedido, será amaldiçoado. Não há controle sobre sua rota; é etérea, intocável, impalpável. Cruel. Não é mais do autor, e nem de ninguém. 

Digo porque vi, e repito: escrever é perigosíssimo.

Como escrever, se não se é mais só?
Como arrancar palavras do próprio coração, se o sabe inserido em outro ser?
                


Como partir para dentro de si, se não existe mais esse caminho egoísta a seguir?
                 
        - Se eu escrever hoje, é porque tenho muita coragem.
        - Se eu escrever hoje, serão suas, meu amor, as palavras a saírem de minha boca.
                                    

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Por eles, e por nós: NO DRUGS

Rio de Janeiro
Da Zona Norte a Zona Sul
Passando pela Periferia e Adjacências





Um minuto de silêncio por eles - Christian Vieira, de 19 anos; Victor Hugo Costa e Glauber Siqueira, de 17; Josias Searles e Patrick Machado, de 16; e Douglas Ribeiro, de 17 anos. 

Assistimos mais uma vez às reportagens. Encontrados mortos. Novamente.
Em comunidades, nas periferias, beiras de estradas, descampados. Em termos geográficos, próximos da capital. Sócio,economica e culturalmente isolados, a anos luz, da cidade maravilhosa.
São as vítimas do tráfico, do violento tráfico que ameça nossa Terra Adorada.
A UPP afastou os marginais dos morros, e recuperamos o direito de ir e vir dentro do perímetro urbano.  Que bom para nós.  Mas criaturas resistentes que são,  os senhores das drogas migram para terras ermas onde possam atentar outros brasileiros, menos sortudos, julgá-los e condená-los sem um pingo de humanidade.  Esses refugiados estão armados até os dentes. Entocados nas florestas, sagradas, que deviam estar reservadas ao lazer e contemplação, aguardam ansiosos a hora de disparar.

Só que não é dos traficantes, irremediavelmente traficantes, que eu quero falar. É sobre nós, filhos da rica Zona Sul, educados, criados, cuidados, chiques, respeitados. Nós mesmos, com nossos belos imóveis, nossos carros bonitos, sapatos caros, diplomas, médicos particulares, nossas terapias.

Nós, caríssimos, que fechamos os olhos aos usuários de drogas. Deixamos o filho e o vizinho fumarem. Achamos até legal, cada um na sua, e pensamos: estou antenada. Aceito as opções de vida alheias.
Ou mais: nós que vamos lá, na boca, ou perto dela, e encomendamos um fuminho, um pózinho, um aditivo para dar uma alegria na festinha. Para suportar melhor o dia-a-dia.

Somos nós que estamos puxando o gatilho destes bandidos. Os endinheirados usuários, em níveis vários de dependência. Os que não vivem sem, os que cheiram por onda. Os que fumam para dar um tchum. Os que compram e revendem por gosto ao perigo. Sejamos honestos, todos nós os conhecemos. Estão nas escolas, faculdades, boites, praias, nas festas mais badaladas.  São muito simpáticos e agradáveis até. Eles tem drogas variadas, sintéticas, naturais, orgânicas, a granel, a peso, unidade, oferecem, compartilham, cobram.
Enquanto houver cliente, há negócio. Enquanto comprarmos, seremos nós os caçadores destes infelizes jovens. Partiram mata a dentro, no único momento de lazer que poderiam ter; jovens que não foram ao cinema, ao teatro, ao shopping, ao clube, muito provavelmente porque não tinham cash para isso, e foram a cachoeira dar um mergulho. Que mal há nisto? Pecaram. Invadiram o campo minado que nós estamos patrocinando - o reino deles, dos traficantes. O dinheiro da marginalidade não cai do céu e não vem de assaltos a banco. O fruto dos grandes costuma destinar-se a ações de terrorismo, ou para garantir la dolce vita aos larápios. O caixa alto do tráfico vem sim da compra e venda de drogas. Que me desculpem os modernos, que acham que queimar um baseado é normal. Não é.
O usuário banca a violência, diretamente. É a galinha dos ovos de outro do traficante.
Este hábito tem consequências graves para uma sociedade desorganizada como a nossa: esse relax acaba por enriquecer o bolso de cruéis capatazes e municia suas armas. Nutridos, fartos e poderosos, ele apontam para os indefesos, para Cristian, Glauber, Josias, Vitor Hugo, e outros tantos. Mira certeira. Acertam. Enquanto isso, a Rede Globo noticia. Ceribelli, Zeca Camargo, Patricia Poeta. Os lindos do Fantástico.
A gente do lado de cá, muito bem instalados, trabalhadores e honestos, nós nos emocionamos, rezamos para que descansem em paz e que os assassinos sejam presos.
Assim prosseguimos com nossos velhos hábitos: culpar o próximo, o Estado e a polícia. Lavar as mãos.
Erramos. A culpa, imensa culpa, precisa ser dividida entre muitos de nós.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

São Jorge e a Nossa Senhora das Periguetes

Hoje vai ter Lua Cheia
e tudo pode acontecer


Valha-me Santo Guerreiro e suas auxiliares


A rádio JB anunciou há pouco: no Rio de Janeiro, céu nublado e névoa úmida.
Descrição de um ambiente propício para mistérios, tocaias e sustos.
Que pena!...Somos cariocas, e não gostamos de dias nublados. Cinza é cor que não pega na gente - conhece alguma carioca que use cinza? Nem em calça social, qual o quê, deixemos essa elegante cor para as chiquérrimas paulistas. No Rio a gente parte para a calça preta. Preto emagrece.
Conhece algum filme ou novela que se passe no Rio de Janeiro em dia nublado? Ah, conhece? Qual?

Não combina. Queremos mostrar a pele que nos cobre, e o cinza não nos favorece.  Laranja, branco, azul. Caem bem. Somos assim: definidos e exibicionistas.  Não combinamos com esconderijos, com segredos. Viramos a cara para os tons intermediários e variados sobre o mesmo tema. Xô tramas insolúveis.  Jogamos às claras, cartas na mesa, preto no branco.
Estou então jogando as cartas na mesa, com a sinceridade de meu carioca coração taurino. Sou ciumenta, barraqueira, e venho, através deste humilde blog, decretar morte cruel às periguetes.

Periguete é outra raça.  Tenho certeza que não são cariocas de nascença ou por adoção. 
Não combinam com nosso clima. Logo hoje, dia desse assim, um dia meio argentino, meio portenho; dia que não cai bem na pessoa de bem, e tá lá a criatura se fazendo de tonta no face do maridinho alheio.
Ah, desgraçada. Sorrateira, faz-se de desentendida. Um like aqui, um coment reticente ali, e a careta presente, só para dizer que ainda está com o time em campo, assim, ao alcance de uma mensagem facebookniana. 
Gosto não. Gosto das que entendem do riscado e partem para o ataque direto,  armas em punho. Aprecio as concorrentes que agem com classe e objetividade, eis o que digo. Classe e objetividade, mistura poderosa que diferencia as mulheres entre si.  Mas a excomungada não. Prefere espionar-nos de binóculo, de longe, encoberta por essa névoa úmida que escolheu descer sobre a cidade maravilhosa e que finda por disfarçar seu olho grande sobre nossa felicidade. 

O inocente homem sequer despertou e ela a postos ali, na linha de frente.
O bom homem dorme aqui ao meu lado o sono dos justos, dos que tem consciência tranquila. Pele de bebê, que coisa linda. Preocupe não, amorzinho. Estou em guarda.
Louca e furiosa, sinto cheiro de sangue neste estranho dia cinzento, que convida a um assassinato.
Controlo-me, e por via das dúvidas, clamo por São Jorge Guerreiro e pela Nossa Senhora das Periguetes . Meu amor, nossos inimigos não nos alcançarão.




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O segundo tempo

Planeta Terra
Hemisfério Sul
Brasil
Para quem é bom de bola



Contagem Regressiva - vamos continuar o jogo

Caríssimos, o tempo urge.
Recente pesquisa de respeito divulgada em jornal de larga circulação, afirmou que o brasileiro vive, em média, 84 anos. Atenção: os que atravessaram a fronteira da quarta década  estão  na segunda metade de sua existência no planeta Terra.  No segundo tempo da vida.  

E o segundo tempo traz uma vantagem enorme: já conhecemos o campo, o adversário, o ritmo do jogo. Temos conhecimento e domínio de nossa habilidade e nossa deficiência, e não arriscamos mais nada sem um cálculo seguro. Somos portanto, jogadores melhores, muito melhores. Ainda potentes, velozes e fortes, a experiência nos ensinou muito.  Estamos craques nos dribles do adversário e ele não nos engana fácil não.

Divido com o caro, prezado e estimado leitor pequenos ensinamentos para seguirmos vitoriosos na partida, com fé, amor e paixão.

1. Preparo físico é fundamental. Alimentação, sono, exercícios. Manter-se no seu peso ideal - comida, bebidas e companhia de qualidade.
2. Preparo emocional. Afeto, amizade. Honestidade de sentimentos e ações. Sem meias palavras em nome da ética, ou de interesses outros; o compromisso deve ser com a verdade, o que garante uma autêntica consciência tranquila.
3. Permitir-se. Curtir com vontade e entrega. Saborear o passe. A bola passa bem rápido e você não há de querer pisar na bola. 
4. Treinar. Treinar para ser feliz. É exercício diário e exigente. Muitas tentações para tornarmo-nos mal humorados e resmungões. Fujamos destes dribles maldosos.
5.   Não tente adivinhar o jogo do adversário. É impossível. Sequer nossa equipe joga conforme a tática, quem dirá os que estão no outro time. Joga direitinho, faz a tua, e segue.
6. Finalizar as jogadas. Nada de ponta solta. Cumpre teu papel em campo.
7. Descanse antes da próxima partida.

Esta humilde aprendiz deseja a todos, em que tempo estejam, seja intervalo, aquecimento ou prorrogação, uma vida cheia de chutes a gol.
Fecho este inusitado post  com palavras do apóstolo Paulo, Adaptadas, é claro:
           
"Ainda que eu saiba de todas as coisas, se eu não tiver Amor, eu nada serei".

Amar, caríssimos, é o grande lance para o Gol da felicidade.















terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Policial e o Sapato Chanel

Rio de Janeiro
Ocorrência: briga de casal
Chanel que nos acuda





Um mimo, o par de sapatos Chanel

Carissimos, essa história é baseada em fatos verídicos. Mesmo. Tomarei todo o cuidado para preservar os envolvidos.  (segundo advogados, agora que afirmei que é real tenho que tomar mais cuidado ainda )

O caso é o seguinte.  A mulher de hoje está perdendo o charme. Esquecendo da distinção. Andando muito à vontade,  largadinha mesmo. Qualquer roupinha  a gente veste, um batom e já vamos para a rua. Errado. Erradíssimo. Nós, cariocas, somos mestres no despojamento, mas alto lá - a elegância mais tradicional pode salvar nossa pele. Vejamos a vida real.

A moça, moça bonita de gênio forte, como manda o figurino e o já referido ditado do meu avô  ("moça bonita tem que ter gênio, senão é só enfeite") namorava rapaz de futuro promissor.  Homem jovem, belo, inteligente, bom partido toda vida. Assediadíssimo, portanto. Disputado a tapa no escasso mercado do gênero homem tipo homem, com h para toda obra, trabalhador, e etc.

Ela não ficava atrás não. Elegantérrima, arisca, atrevida. Moça bonita mesmo dos pés a cabeça. Olho aberto, ela desconfiou.
Tinha uma pequena no caminho. Seu nome muito citado, volta e meia vinha à conversa entre os dois. Gostou não.  Trabalhavam juntos, o que é perigosíssimo, sabemos. O convívio aproxima demais, cria oportunidades demais. Homem é bicho bobo, cai em armadilhas fácil demais.

Faro apurado, ela partiu para o flagra. 
Impecável. Chic de doer, Chanel da cabeça aos pés. Dirigiu-se à casa do rapaz, hora de serviço, que fazia ele em casa aquela hora? Mulher tem radar, e funciona que é uma beleza.  O rapaz tinha caído em tentação sim, e o flagra estava armado.

O caríssimo abriu a porta? Nem ele. Escândalo, porta socada, gritos. Moça bonita em Chanel,  gritando,  chama atenção até de falecidos, e os vivos atentos chamaram a polícia. 

Chegou a polícia. Rapaz trancado.  Passara rapidamente do status de namorado para o status de inimigo perseguido; queria vê-la algemada, e distante dele o mais rápido possível.  Moça desconsolada. Ninguém a convencia a deixar o local. Passa hora. Outra hora. Veio amiga, veio mãe, veio ex-namorado prometendo amor eterno, veio irmão. Nada.  A moça só saía dali com o flagra constatado.

Mas tem gente que está no lugar certo, na hora  certa. Aproximou-se um policial, assim, de soslaio, falando baixo. À paisana, distintivo discreto, meio mais velho, meio sabidão. Chegou perto, ofereceu lenço de papel, ofereceu água mineral. A moça acalmou, bebeu água. Ofereceu cigarro. Aceitou. Charmosa até na dor, tragou, sôfrega, como uma diva do cinema.

Era a deixa para o homem da lei. " - Sabe, eu sei que a senhora está nervosa, com razão. Como que é que um rapaz faz um negócio desses com a senhora? Uma moça assim tão chique... De sapato Chanel e tudo".
A moça parou. " - Que adianta um Chanel numa hora destas??? Mas o senhor conhece Chanel, como sabe que meu sapato é chanel?"
Polícia "- Sapato não, né. Isto é uma obra prima, uma coisa rara.  A senhora está muito bem, muito bem calçada e trajada. Chanel, eu vi o filme.  E pode usar, é elegante, tem porte. Fica muito bem. Muito melhor que essas maluquetes de piercing no umbigo, isso não é estilo fino. Mulher para casar, para apresentar para mãe tinha que ser assim, igual a senhora. Chique. Chanel."
A moça insiste: "- É, que adianta? Estou aqui do lado de fora, e ele aí com outra"
Policial: " - Ah, mas não deve ser assim que nem a senhora não. Onde é que se arruma mulher assim, de sapato bonito, bolsa bonita, por aí? Tem não. A senhora fica tranquila, vai arrumar namorado muito melhor que esse, que lhe dê o devido valor. Que admire assim, sua elegância, sua presença, seu estilo. Fosse a senhora uma moça largada, qualquer, que não se cuida, eu não falava nada. Mas a senhora, a gente tá vendo que é moça de gosto, que merece o melhor. Vai arrumar marido à sua altura, e não é qualquer coisa não"
Moça: "- O senhor acha mesmo?"
Policial: " - Tenho é certeza. Uma pessoa que se veste assim, tem capricho. Tem cabeça para escolher roupa, como é que não vai saber escolher namorado? Deve ter fila para sair de braço dado com a senhora. Posso falar, tem idade para ser minha filha. Uma beleza de  moça, isso é que a senhora é. Esse rapaz deve estar é doido, e doido é com médico, não é com a gente da polícia não"
Moça: "- Sua filha, não, quê isso. Nem me chame de senhora, por favor.  Sei que é por educação, mas pode me chamar pelo meu nome"
Policial: " - E qual o nome desta flor?..."

E nessa prosa de moda, capricho e flor,  o policial foi adoçando a madame.  A moça foi retirada do local sem sentir. Saiu de braços dados com o policial, esperançosa de dias melhoras. Levada pela família para merecido descanso e recuperação de sua integridade emocional.

Fica o recado. Chanel. Dior. Givenchy.
Prada.
Marcas assim, que destacam um mortal na multidão.
Embora no amor - e na dor - corpo e alma estejam nus e descalços, e embora o coração não permita etiquetas,  e as rejeite veementemente, na hora do flagra um bom Chanel  pode fazer a diferença, pode sim. Ajuda, e como.



Na cama

Rio de Janeiro
Santa Tereza

Ocupação horizontal
Que beleza

  É preciso cama, e com amor 

ÔPS!!!!
Não é nada disso.
Juro por Deus que não vou falar das maravilhas do amor carnal, juro mesmo, vou não.

Bem,  vou é falar de repousar.  É, verbo em desuso: coisa antiga.
Ficar de cama sarava de um tudo, que era uma beleza.
Gripe?  Vitamina C e cama.
Fraturas?  Gesso, gesso mesmo, brancão, dois dias para secar, pé para cima, e cama. Nada de botas Robocop para circular por aí, não.
Criança levada?  Dois tapas no bumbum, e pode chorar na cama que é lugar quente.
Males do fígado, do rim? Mulher parida?  Canja de galinha e cama limpa.
Pneumonia? Cama, mas muda de posição senão piora.

Hoje não. Hoje tem a tal da reação. Engole um comprimido sei lá de quê e reage. Vai a luta.
Calma -  tudo tem seu tempo. O corpo e sua cura também. Repousar é um exercício de paciência, de pacifismo. Lutar pacificamente pela recuperação de si mesmo. Evolução espiritual, caríssimos, evolução.
Pobre de mim, impaciente e afoita,  primitiva criatura taurina. Gulosa, andei abusando dos frios. Parma, salaminhos, e outros presuntinhos. Um gorgonzola aqui, outro ali... Só, mais um pouquinho, amor, vai.
Embolou. A coisa pesou, a coisa ficou esquisita. Que fez meu amor? Homem sábio que é, colocou-me na cama. De molho. De repouso. Ficou ali, ao meu lado, dia e noite, paciência sem fim. E eu sou chata, hein. Reclamo, resmungo, o travesseiro está duro, está frio, está calor, está apertado, cadê você, vem para cá, vai para lá, ajeita assim, o som está alto, o som está baixo, tenho sede, não quero água, ai maldito salaminho.

Confesso - o estado de repouso nos fragiliza. Somos fortes por imposição desta maluquice de mundo, que contraria nossa essência humana o tempo inteiro, ou há quem imagine que nascemos para matar um leão, assim, todo dia?  Claro que não!!!! Doentes, acamados, voltamos a ser os filhotes que precisam de cuidado o tempo todo.  A realidade é essa: não somos fortes. Não somos independentes. Em algum momento, precisamos ser olhados, cuidados, amamentados. Remédio na boca, água na boca, cobertas arrumadas, lençóis trocados. Acordamos vinte vezes, inquietos, incomodados, assustados, e precisamos vermo-nos acompanhados, ali, juntinho ao nosso corpo enfermo o corpo do amado.  Precisamos ser bem queridos, sim, muito bem queridos, porque tem que ser com amor, zelo com amor,  senão não vale de nada; senão é coisa de enfermeira alemã.  Senão magoa, e mágoa é doença danada que não cura fácil não.  Mágoa é mais difícil, carece de outros tratamentos.

A valentona aqui virou criança boba. Bebê indefeso.  Grandalhona, desinibida, qual o quê.  Fiquei pequena, arriada, encolhida.
Na cama, inocente. Mão estendida para te alcançar,  para segurar em você. Medo de afundar, de piorar, de   agravar.
Febre veio e passou. Enjôo veio e passou. Dor corpo afora, veio, parecia que ia doer mais, mas passou.
Salaminho, nunca mais. Amor, sempre.  Para sempre. De mãos dadas comigo, abraçado comigo. De repouso comigo.  Sorrindo para mim, a postos para mim. Pronto para mim. Aguardando, pacientemente, pela minha melhora.

E ficamos assim, que amor cura, e paciência cura. Ficamos na horizontal, parados, imóveis. Permanecemos deitados através do tempo,  incomum e necessariamente imóveis.

Repousar junto é prova de amor. E afinal, quantas mil maneiras, enfim, temos de ocupar esta cama?






segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Onde?

Rio
Por Onde?
Onde?
É na Terra da Certeza




O paraíso existe

Este fim de semana eu conheci uma moça bonita. Conheço várias moças bonitas, na sua maioria como esta. Intrigantes.
Parece que intrigar é acessório da beleza - deixar no ar indagações sem resposta, perguntas que se multiplicam sem traçar rastro de explicação plausível.

Preciso esclarecer que não estou falando do mistério que envolve algumas criaturas mágicas, esse je ne sais quoi poderoso e indecifrável, e inimitável, que embeleza certas mulheres (e homens) de forma arrebatora. Quem resiste ao olhar fugidio, que provoca a vontade de sermos objeto deste olhar, de retê-lo em nossos olhos? E de mãos que pouco se movem e que para observá-las temos que nos utilizar de subterfúgios, como perguntar a hora, por exemplo. Não é disso que se trata, desse despertar da curiosidade.

Tampouco refiro-me ao enigma sobre a estampa feminina, praticamente outro objeto de pesquisa científica.  É impressionante como certas fêmeas são belas, e todas nós temos vontade de copiar o método utilizado, mas precisa de muita intimidade e segurança para verbalizar.  Aquilo de querer saber " - Como faz para ter esta pele? Como faz para conservar-se magra? Ficar assim, jovem, com tudo em cima? Da onde tirou esse sorriso que encanta? "Onde comprou esta roupa linda?" Só se estivermos muito de bem com a vida ...

Na verdade, eu falo das perguntas graves. As sérias e profundas interrogações, que ensejam dúvidas a comprometer os próximos meses de vida. Sim, vez por outra cruzam nosso caminho deusas abençoadas com beleza, charme, educação e estilo, além de qualidades e  aptidões apreciadas em nossa sociedade ocidental. Mas falta o principal: BEM ESTAR. REALIZAÇÃO. SATISFAÇÃO CONSIGO.  Elas trazem uma fraqueza no olhar. Uma pressa de estarem onde estão. Uma agitação, como se estivessem perdidas e sem ter a quem pedir informação. Buscam apoio sem encontrar. Sem saber para onde vão; muito menos por onde ir. Sem saber se vai dar tempo de chegar, hesitam entre ficar e partir.
As perguntas que pairam sobre suas cabecinhas indecifráveis não são percebidas por estes anjos, não. Só os mais vividos e ensinados pelo destino entendem do que se trata, e ficam matutando. Aí a gente puxa conversa para que elas possam falar.
" - É comigo mesma, coração. Pode dizer."

E a moça foi falando. Mil palavras sem conexão lógica para contar sua mágoa, frases confusas que não convencem ninguém. Compreendo a confusão. As Moças Bonitas costumam ser muito assediadas pelo Bicho Homem e suas espécies mais carnívoras, o quê dificulta bastante sua existência pacífica nesta Terra Adorada - os predadores identificam de longe a fragilidade destas presas, e atacam. Sugam seu sangue devagarzinho. Saboreiam a iguaria até enjoarem. Como conseguem enganá-las assim? Fácil.  Oferecem a ilusão do amor, qual moça não quer amar? Saciados, o apetite vai minguando, era fumaça, miragem, era promessa vazia. Ficam as perguntas, vagas, evasivas, repetitivas.  " - Nossa, parecia que ele gostava de mim.  Porque não deu certo? Por quê ando em círculos? Eu fiz de tudo. O que faltou?  Para quê tudo isto?"  Daí a inquietação que aparentam, findo o banquete dos rapazes.

Os últimos anos me ensinaram que a essência da felicidade está na simplicidade dos fatos e ações. Pé no chão, que palavra e ação tem que ser coerentes. Se tiver muita variação, muita pergunta, é trabalho de doutorado, e deixemos esse árduo serviço intelectual para os acadêmicos.  Na vida real, se tiver muita hipótese, justificativa e relevância, e tiver que fazer pesquisa de campo, esqueça. Se não sabe bem, se não entende bem, se não quer bem, esqueça.  A dúvida é a marca do fracasso;  as situações intermediárias e multifacetadas tem prazo curto, curtíssimo, e precisam ser resolvidas em tempo certo - se passar, azedam o caldo. Foi-se. Ou entrega-se ao Amor, ou parte para outro. E vale para profissão também.  Ou se dedica e decola no trabalho escolhido, ou parte para outro ofício.  A escolha é sua, a vida é sua, a dor é sua, e a alegria também. Orgulho de ser quem se é! Orgulho de Aprender, Menina! Vamos parar de enganar-se, de dificultar as respostas. Estão aí e temos que encarar. Vamos assumir que são somente duas, esta técnica ajuda muito; o terreno das nuances é perigosíssimo. Fiquemos com a segurança do SIM ou NÃO.
Vai por mim -  É ou Não É. Quero ou não Quero. Vim para valer, ou Nem Vou.  Amo ou não Amo.  Sou Melhor, ou Estou Fora. Sigo ou Desisto, e pronto.

Torço. Torço para que abra os olhos e esclareça o coração. Sem medo. Encontre suas respostas, fáceis ou difíceis, e não se contente enquanto não for absolutamente feliz  - a felicidade é um Todo indivisível.
Digo porque vivo - na terra da felicidade não há espaço para dúvida. Brota, cresce e floresce da certeza.  Regue todo dia que o paraíso, caríssima, revela-se.  É um lugar maravilhoso.










sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mix e Remix

Santa Tereza
e onde mais seja




Misturados

"Nada melhor do que não fazer nada
só para deitar e rolar com você"   (rita lee)


Eu não venho aqui falar de sexo,
nem de pornografia  ou erotismo 

Venho aqui falar de coisa mais rara,
mais difícil de encontrar.

Bem sabemos que nos dias de hoje nada é mais fácil que encontrar um par para trepar.
Tampouco este é o tema desta sexta feira, pelo amor de Deus.

Sou moça fina, mãe de família, não posso ser assim reles e vulgar.
(falar sobre sexo exige cuidado - as pessoas adoram fazer, mas tem pavor de comentar
temem rótulos, temem o castigo, o pecado. Temem fofocas.
Não tenho medo destas bobagens.
Tive foi medo de não saber mais amar)

Escrevo hoje sobre mais, muito mais que trepar.
Mais, muito mais que praticar o ritual milenar da conjunção carnal
O exercício de nossa vocação de procriar,
porque ainda que infertéis, a vocação fala alto, e precisamos praticar.

Falo de diluir-se um no outro
Desmanchar-se para adquirir nova forma.
Mergulhar no organismo alheio
que já não é alheio
é de uso comum
é de corpo inteiro.

Digo de derreter-se fundir-se 
E soldar, pelo calor mútuo de duplos tecidos,
um novo tecido cutâneo, que reveste de uma vez só a ambos;

digo de não mais reconhecer-se Um. 
digo de ser, parecer e reconhecer-se um Novo Ser.
Amamentado aquecido acolhido esperado
Amado, muito amado.

digo sobre olhar-se como nunca ter-se visto
e reconhecer-se como se sempre se tivesse assim imaginado.

( era assim que eu via nos sonhos)

Venho aqui falar de misturar
Mixar e remixar
Pela sobreposição inversão e lateralidade;
Pela vontade
De criar, através do calor e do contato mais calor e mais contato
Multiplicar o olfato, paladar visão e tato;
a audição não.
Nesta alquimia não se ouve nada que não venha do coração
e sua linguagem é necesssariamente silenciosa, e se há som,
são incompreensíveis gemidos.
Uivos.

Sim, venho falar de instintos,
sem ideologia ou filosofia - sem conceituação.
Soltos livres loucos instintos.  
Deixar que a alma siga por físicos caminhos, 
e que falem os peitos
os testículos
os aurículos as artérias
os ouvidos.
que falem todos os lábios,
todas as membranas e mucosas.
Pulsam com força essa multidão de veias  da barriga  da coxa da bunda da perna
das virilhas.
e calam a solidão com sua língua crua e viva.
Corajosa língua.
Vemo-nos mordidos por outros dentes
sem sentido e sem dor .
Lindos dentes os dentes do amor, capazes de tirar sangue sem dor,
doadores universais que são de incomum prazer.
Estranho e irresistível este único ventre com dois umbigos
E não há explicação estética, pois dele surgem braços e mãos e pés e unhas
poderia ser um desequilíbrio, mas não,
todas as partes tem uso e sentido
do joelho ao tornozelo,
passando pelas 
costas nuca pescoço cintura costela quadril
coluna vértebra medula 
vísceras em movimento
curadas úlceras.
Pensamentos permissivos que estariam no útero
e se não tenho útero, como ainda estão em mim?
Os pensamentos estão em seus dedos.


      Há quem diga até que estamos parecidos.
      Esta gente é sábia; faz sentido.
      Somos macho e fêmea da mesma espécie em extinção
      Encontramo-nos para sobrevivermos são e salvos
                    -   E Seguirmos em casal neste mundo cão








quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Papo Reto

Metrô
Do Flamengo
a Ipanema



                                                                          Vamos papear
                                  

Eu vinha de metrô,
muito distraída de mim.
Mas duas senhoras, confortavelmente instaladas em bancos paralelos,
- e eis aí um desafio à geometria, que afirma que os paralelos não se encontram-
estavam também distraídas de mim e do resto do mundo,
e atentas uma a outra
(portanto a atenção faz o encontro) 
puseram-se a papear.
E contaram sua vida no breve espaço entre o metrô Flamengo e a Praça General Osório.
Entre uma estação e outra,
entre os avisos gravados e apitos,
entre o ir de vir de estranhos,
elas prosseguiram.
Nada as interrompia.
Sei que uma é mãe, a outra não quis filhos;
mas cuida de seus pais idosos, que viraram seus filhos.
Sei que uma é muito feliz no casamento,
a outra aprendeu a viver com marido e sem amor.
Uma disse que tudo é exercício de carinho
(achei bonito isso)
A outra disse que tem muita conveniência no mundo.
Houve um silêncio triste.
Falaram de adoção de crianças e de cães
De responsabilidade e de abandono.
De liberdade e de culpa.
De escolher sempre que possível,
e aceitar o impossível de escolher.
Falaram de amizades verdadeiras,
que valem mais que amores falsos.
Falaram de casar, de não casar, de casar e separar,
de casar e amar, de casar e desamar.
De suportar.
Falaram de patrão e de empregada
De síndico e delegada.
Ouvi até que uma tem um amante.
(meu ouvido é bom)
É, é amigo de seu primo
ou primo de seu amigo
ou talvez ainda primo do amigo do primo,
não sei direito, mas sei que ela disse que ele a faz feliz,
e que com ele passa as melhores horas de sua vida.
Ela mente para o marido frio, dizendo que vai ao dentista,
Mas não vai não.
(Pelo menos não na hora que diz que vai.)
E acrescentou que é um ótimo álibi - o celular fica desligado,
porque ninguém pode atender o telefoninho danado
se está anestesiado.
Assustei-me com sua coragem em confessar ou inventar assim, uma traição,
em público,
para uma estranha.
ao meio dia e meia,
no metrô de Ipanema.
(às vezes é mais fácil confiar nos estranhos)

Quem quis ouvir, ouviu, e quem não quis, ouviu também.
Pensei em Glorinha Khalil, a chic Glorinha,
que disse que ser chic é ser discreto: não insinuar, não perguntar, não inquirir, não revelar segredos,
Manter-se neutro e respeitoso.
Não fui chic não. 
Guardei cada palavra e conto aqui
(nem sempre é possível, Glorinha!...)
Intrigada que fiquei com nosso espírito brasileiro
E nossa vontade de compartilhar, debater e reafirmar
nossa opinião junto ao outro.
Precisamos expor o que sentimos,
Seja para termos apoio, e para gerarmos vínculos e afinidades,
Seja para chocarmos e ferirmos,
o que também não deixa de ser um vínculo.
(vinco= marca; o que marca mais que uma palavra dolorida?)
E no fim das contas, Glorinha, somos todas mulheres faladeiras,
mulheres brasileiras.

       - Temos muita vida a viver e não temos mesmo muita etiqueta.








quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Dançarina e Ladrão

Em algum lugar do Chile
Da Latino América
De mim
De você


Ricardo Darin, Abel Ayala e Miranda Bodenhofer, sob a direção de Fernando Drueba - arte e realidade

" Com a chegada da democracia no Chile, após a saída do ditador Augusto Pinochet do poder, o jovem Angel (Abel Ayala) e o veterano Vergara (Ricardo Darín) são anistiados. Enquanto Vergara está disposto a abandonar o crime para se reencontrar com a família, Angel quer que ele o ajude em um golpe idealizado por um companheiro de prisão. Paralelamente, Angel conhece e se apaixona por Victoria (Miranda Bodenhofer), uma jovem muda que sonha se tornar bailarina. "(adorocinema.com)


Esta é a versão oficial do filme.
Não acreditemos, caríssimos, assim tão facilmente, nas palavras impressas - é preciso ver o filme. Como diz Gilberto Gil, se a gente não ver não há. E há que ver este trio de  marginais. Criminosos? Não sei. Crime é ação ou omissão que infrige a lei, e não a moral. Sabemos que moral e lei andam bem separadas aqui pela América Latina, então não os julgarei criminosos; são mais inocentes que os legalmente corretos, garanto.   Não me corrompo pelos códigos de conduta do Estado.
 .
Corajosos sobreviventes da cruel ditadura Pinochet, livres da prisão, foram aprisionados na pobreza, na miséria e na solidão. Covarde solidão, imposta e contra a qual não conseguem lutar, a não ser que se unam em mais um ato ilegal. Daí adiante não vou. O caríssimo tem que ir por seus pés, já que não temos a mesma suerte de Angel, herói anti herói que anda a cavalo. Ni la misma suerte de Victoria, a bailarina, que desliza sobre seu corpo. Vamos a pé mesmo, mas de olhos bem abertos. Veremos um filme de arte, apresentado comercialmente como um filme romântico, porque os filmes de arte não lotam cinemas. É um filme de arte,Vitoria dançando é arte, Angel voando e cavalgando é arte.

Os corajosos namorados Vitoria e Angel, e quem quiser que os impeça

O diretor foi muito sábio.  Para trazer esta fábula á realidade, além de situá-la (muito superficialmente, que pena) no cenário político da pós-ditadura, terreno impreciso e ainda assombrado por fantasmas conhecidos, contou com a bruta verdade de Ricardo Darin.
Pausa, aqui, respeitosa pausa. Darin é ator, diretor, escritor, roteirista, e o que mais o seja, o será de primeira linha. Traz às telas a revelação (dolorosa ou confortadora) de que somos humanos, envelhecemos, temos cabelo branco, olheiras, bolsas em baixo dos olhos. Criamos barriga e mau humor, e é assim mesmo, e ponto. Com o passar dos anos nossas mágoas profundas doem menos, e experimentamos algum alívio nisto; além do mais essas mesmas cicatrizes nos tornam imensa e irrevogavelmente melhores e mais interessantes. Deixamos de ser figurinhas de um álbum e passamos a ter personalidade, história, passado, presente e , que maravilha, temos futuro. Sarcástico, companheiro, humano, sofrido, atrevido, Darin como o vilão anti vilão Vergara Grey faz a ponte entre a arte e a realidade, e nos convence que tudo aquilo aconteceu de fato, e que os fugitivos estão agora fazendo amor e tomando uma boa taça de vinho...
Muitas e muitas cenas poéticas, a escolher. Emocionam. A dançarina, em sua rôta majestade, a nos tirar o fôlego; o ladrão, inocente como um bebê, acreditando que seria feliz nesta Terra ingrata; e o ladrão mor, Darin, angustiado e embriagado cantando os primeiros versos de El dia en que me quieras. A cena final, suave, silenciosa, que sugere novo início, novo começo, como deviam sugerir todas as cenas finais, na tela e na vida.
Os personagens em suas diferenças confirmam o que eu digo: os homens em suas diferenças amam e precisam de amor, e de sonhos, possíveis ou impossíveis; e de paz, e de felicidade. Lutam, matam e roubam se preciso for; atravessam fronteiras geladas com firmeza e determinação. Machões, ladrões, dançarinas, velhas professoras, viúvas, madames. Somos todos absolutamente iguais: o amor e o sonho falam mais alto em nossos corações, que todas as leis, que todas as regras de comportamento e que todos os ditadores.

Vamos dançar - todos precisamos de sonho, todos nós

" Acaricia o meu sonho, 
com  o leve múrmurio do teu suspirar
 Como eu seria feliz nesta vida, 
          se os teus olhos negros me quisessem olhar... 
Ah, como queria que risses para mim,
Com essa tua risada suave
Que é quase um cantar..."  
( El dia en que me quieras, Carlos Gardel)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Mais que mais um Ano

Rio de Janeiro
Bercário do Mundo inteiro





Viva a idade nova de Pablito

Senti o cinto apertar na cintura. Estranhei, procurei meu reflexo na vitrine.
Não, eu não estava inchada, pelo menos não se notava.   Sentia a barriga estufada. De quê? Eu vinha sem apetite nenhum nos últimos dias.
Aliás, na verdade, eu andava era enjoada, sei lá. Não queria comida.
Nem bebida. Até o ar que eu respirava me causava náuseas.
Cheiro de cafè? Assim, fresquinho? Nem pensar.
Sabonete, pasta de dente. Horríveis sabores.
Água. Não, tem gosto de ferro.
Nada.
Só alho, bem torrado no azeite, com pão velho. É, velho, duro, de dois dias passados.

Fiz o exame.
Deu lá: grávida. Totalmente grávida. Indubitavelmente grávida.
Susto. Choque. Incompreensão. Pânico. Como, meu Deus? Eu me cuido.

Mentira. Eu havia falhado no tal cuidado. Distraí-me, mas o plano espiritual não se distraiu comigo. O pessoal lá de cima estava de olho em mim, e aguardava meu vacilo. Era chegada a hora de emprestar meu corpo para um anjo vir à Terra.

Era minha vez. E por mais que se diga - e eu sou dessas que gostam de dizer - que a mulher nasceu para ser mãe, que tem instinto maternal, que é a maternidade é natural, e blá , blá, blá, não é bem assim. Não é mesmo. Bem, fechando o foco: não foi bem assim para mim.  Não foi um anúncio de Confort com a mamãe e o bebê deitados em um edredon florido, quarto amplo e arejado, sossegados e felizes tirando um soninho gostoso.
Longe disso.
As mummys suspirantes que me desculpem - ser mãe de recém nascido é de perder o fôlego. Sem dormir, sem tempo, amamentando de duas em duas horas, bebê com cólica, vômitos, febre, dente, vacina, pediatra; correrias. Papai? bem mais fácil. Pai não amamenta. Liberdade de ir e vir preservada e garantida. Eu quase pirei.  Bem, dei conta do recado, e o baby cresceu, lindão.

Meu primeiro filho veio ao mundo há quatorze anos. Completa-os neste 31 de Julho. Em rápidas contas, 14 anos de 365 dias cada um, temos 5 mil e duzentos dias de convívio, íntimo e intenso. (fora os 280 dias da gestação) Relação de dependência, de amor, de proximidade, que estranhei ao início, confesso, criatura egoísta e individualista que eu era.  Os dias difíceis, do trabalho exaustivo, das noites sem sono e dos dias agitados foram sendo substituídos por dias mais controlados e mais alegres, aos poucos, aos pouquinhos...Passeios, diversões, saúde, e uma comunicação sem sílabas foi surgindo.  A rotina foi ficando leve e repleta de compensações. Pareceu fácil esta transição, assim posta em duas frases? Mas não foi. Eu era uma pessoa. E continuando a ser uma única, tinha que cuidar de duas pessoas, sendo que a segunda pessoa era mais importante que eu, indefeso, incapaz, frágil. E chorava o tempo todo.

O pequenino encontra-se maior que eu.  Em estatura, sim, e em maturidade, provavelmente.  Não conheceu a redoma que eu conheci; acostumou-se com mudanças de endereço, de colégio, de amigos, de pai, de padrasto. Foi colecionando irmãos por todos os lados. Alma de cigano, magoá-lo é difícil. Sua história o talhou forte, em madeira de qualidade. As circunstâncias que poderiam ter-lhe sido adversas conspiraram a seu favor. O moço resiste aos ventos com classe e categoria,  e à essa mãe meio despreparada que o destino reservou-lhe.

A cada ano, melhor. Bonito, honesto, inteligente. Leal. Com ele se conta.

A cada idade nova, mais um ano dessa força, de mais força, de renovada e arraigada força.

Maior parceria , maior entendimento, maior companheirismo. Este seu aniversário não comemora só mais um ano de vida - comemora para ele, e para mim, mais um ano de vitórias. Vamos driblando nossas incertezas, as diferenças, os medos, as euforias. Esticando alguns limites e encurtando outros, vamos nos equilibrando entre espaços distintos e universos quase incompreensíveis. Quase. Não há incompreensão no Amor, são substantivos incompatíveis. Não aparecem lado a lado na semântica, nunca. Digo e repito: o Amor é sempre a saída, o motivo, e a explicação.

Campeão de 2012, ele.  Aprendiz, eu.  Ambos premiados neste desafio de vencermos - principalmente - a nós mesmos.



quinta-feira, 26 de julho de 2012

O vôo de todos nós

Planeta Terra
Boa Viagem



O avião vai decolar 

Senhores passageiros, dirijam-se ao setor de embarque.
Atenção: passaporte, bilhete, volume de mão.
Bagagem para despachar. Check list ok? Muito bom, então.
Avancem pelo detector de metais e dirijam-se ao portão, números decisivos marcadinhos aí no seu ticket de embarque.
Para que esta cena tenha um final feliz, caríssimo, muita coisa tem que estar em ordem. O caríssimo tem que ter chegado na hora certa, ou um pouquinho antes, ou mesmo muito antes, e ter esperado o momento de adentrar `as privilegiadas áreas dos viajantes.

Viajantes, atenção: o vôo parte, e parte mesmo. Quem embarcou, ótimo, está acomodado, valise no porta volumes, cinto atado, e partirá. em segurança.  Atrasado? Só coisa pouca que faça correr um pouquinho, coração disparado bem de leve. A aeronave pode atrasar, em solo, no ar, mas o viajante não pode não. Não tem direito, fica em terra firme, e perde a viagem.


Chegamos até aqui juntos, ou um de nós atrasou?
Meu coração diz que o caríssimo está juntinho comigo e seguiremos neste panorâmico olhar sobre a pontualidade das nossas escolas. Conhecemos tantas histórias assim. Um par de horas no saguão do aeroporto e assistimos o povo entrar, partir. Descer, chegar. Encontrar e desencontrar.
Um par de anos na varanda e assistimos o povo conhecer, acreditar, desacreditar, desistir. Partir do outro, partir de si mesmo. Viajar para outro lugar, ou ficar em terra firme.

Pontualmente.

A vida real tem seus próprios ponteiros. O piloto é mais flexível, e permite (ou impõe) que os caríssimos experimentem e conheçam o companheiro de viagem antes de decidirem se vão, ou se ficam. A decisão precisa ser tomada em tempo hábil. O avião decola.

Esses pensamentos aterrissaram  em minha cabeça nômade trazidos por amiga de asas, que já voou para outras terras, aqui mesmo neste blog.  Chegou agora do azul Mediterrâneo, renovada pela beleza estonteante e pela liberdade desfrutada em mares nunca dantes navegados. Moça fina que é, narrou-me luxos, confortos, alegrias, carinhos. Que maravilha. Terminou seu belo discurso com a interrogação:
 - “ Bebêzinha, já pensou se eu não tivesse ido? Não teria vivido nada disto!!!! Fiquei na dúvida se ia, se trocava de carro, se ia para lá, para cá, para acolá. Muitos lugares para conhecer!!! Ai, eu também vi gente atrasada perdendo vôo, que pena... ”

Juntos de novo, ou tem alguém atrasado a ponto de perder novas emoções? Seria uma pena.

Tratemos, portanto, de escolher nosso destino, procurando aquilo que mais nos apetecerá: quem quer amor, escolhe amar, e tem que ir fundo. Diversão? Tem de monte, mas é em outra plataforma. Amizade? Linda paisagem, confortadora. Carreira?  Solo ou em grupo? é preciso sintonia...

Eu, caríssimos, garanto:  tracei a rota e estou com tudo em cima, de partida para o novo mundo. Passaporte carimbado, mala pronta. Alma limpa, limpinha, zerada, que não dá para viajar arrastando mala emocional. Escolhi o destino, é vida nova, sem medo, que medo é outro problema do viajante. Paralisa, entra em choque, sobrevive a base de álcool e calmantes, o medroso precisa de anestesia, e o meu espaço aéreo é o da lucidez; estou no aeroporto, cheguei na hora exata. Passaporte, bilhete, check list. Ok.   Detector de metais? Pode inspecionar, estou desarmada, aqui não há ameaças; as flores? Ah sim, são enfeitar o caminho. A música? Para embalar o passeio, que sem música não tem graça. E essa boca, é para quê?
Para beijar, que o beijo de amor é a champagne servida na primeira classe.

Escolhi o companheiro, sábio e gentil viajante. Delicioso parceiro.  Escolheu-me, vejam bem, caríssimos, que honra!
Seguiremos juntos nesta viagem, estamos a postos. Chegaremos, se possível, ao paraíso.