terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Troca

Copa
Cruz
Casa Cruz em Copa



É lindo, mas quero trocar...


Entáo foi Natal.
Entáo haverá, certo como dois e dois sáo cinco, presentes a trocar.

Sou máe. Tenho filhos. Ganharam presentes, escolhidos com carinho sob o prisma de quem os ofertou. Nós, terráqueos latinos, somos assim: costumamos ofertar os presentes e sentimentos que queríamos receber. Por vezes acertamos. Por vezes nossa oferta coincide com o desejo do destinatário; no campo dos presentes é infinitamente mais fácil do que no campo dos sentimentos. A matéria nos é mais íntima e acertamos com mais frequência.

Se queremos agradar, se queremos conquistar, nada de ofertar o que achamos bom. Pensemos no que o outro quer, mas isso é outra história.

A mesma história é que em ambos os terrenos é permitido trocar, nem sempre com tranquilidade. Houve tempo em que a repressáo náo permitia tal ato supostamente egoísta: na minha criaçáo era feio, muito feio trocar. Ganhava-se um vestido e tinha que usá-lo, gostasse ou náo. Um anel, idem. Uma boneca, pior, tinha que brincar e se apegar à infeliz. Você casava e aguentava aquele marido chato e machista vida afora. Hoje náo. Se náo gostamos, se náo funciona, se náo atende, se náo entende nossa língua ou se náo conseguimos entender seu manual, trocamos e ninguém se magoa, ou se magoar, passa, passará. Melhor a mágoa da troca que mágoas maiores, constantes.

Podemos traumatizar.

Meu caçula ganhou da tia um kit de pintura. A meu ver, lindo. Fosse para mim, lindo. Completo, colorido, um mundo novo numa caixa fosca de madeira, como um baú secreto. Cavalete, pincèis, telas, tintas, paleta, carváo. Possibilidades da cor, da textura, da criaçao. O garoto com uma palavra disse tudo. Náo. Quero trocar. E eu com uma palavra disse Sim, vou trocar, é ali da Casa Cruz.

Entrei pronta para briga. Natal, quem vai trocar o quê? Eu vou é trocar sossego por encrenca, esporte que abandonei há anos, estou fora de forma.

"- Preciso trocar este presente. Tenho a nota."

Recebida com um sorriso discreto. O Sr. Cruz, o chamarei assim, me apontou o subsolo e disse que eu escolhesse outro brinquedo. Andei aquilo tudo. Nada. Tudo muito educativo. No Natal náo da, nem sempre educaçao e diversáo andam juntas.

Voltei ao Sr. Cruz.

" - Olha, eu náo consegui encontrar nada. (essa frase é ótima, pois atribui a inabilidade do "encontro" ao cliente, e diminui possíveis resistências do lojista). Vocês poderiam me dar um vale? "

E neste momento o Sr. Cruz resgatou em mim a fé na humanidade. Olhou-me nos olhos e perguntou:

" - A senhora prefere seu dinheiro de volta? A notinha diz que foi em dinheiro, foi a senhora que comprou?"

Neste momento perdi a fé em mim. Menti.

" - Sim, fui eu. Se o senhor pode devolver, entáo prefiro."

O sr. Cruz devolveu o dinheiro. Mediante a afirmaçao de uma estranha, loja cheia, nota sobre nota.

Apertei sua máo e saí. Imaginei que eu estava no paraíso dos clientes e acordaria a qualquer momento. Dinheiro de volta por sugestáo do gerente. Aborrecimento zero, cliente feliz, criança feliz. Sociedade feliz.

Pergunto porquê. Porque há tanta dor de cabeça quando devia ter sorriso e aperto de máo. Porque há tanta recusa quando devia haver conciliaçáo. Oposiçao quando devia haver soluçao. Porque náo há mais do Sr. Cruz vida afora.

Vamos devolver com carinho e simplicidade o que náo queremos. E vamos seguir sem mágoas, prontos para encontrar o que nos atenderá melhor. Sigamos o exemplo do Sr. Cruz - aceitar, devolver, e apertar a máo.

Sei que menti. Sei que foi feio isso de mentir para um trabalhador bem intencionado. Como defesa afirmo que minha mentira em nada prejudicou a Casa Cruz, e beneficiou a todos. Sr. Cruz teve a oportunidade de mostrar seu fair play, o menino ganhou o que queria, e todos ganharam. Lembrei-me do rabino Nilton Bonder e de seu discurso sobre a alma imoral.

Fica aqui o elogio a Casa Cruz de Copacabana. Fica aqui a sugestáo: vamos devolver aquilo que náo serve. Sem picuinhas. Pegue o que é seu, eu pego o que é meu, ficamos todos felizes, sem prejuizos. Sigamos sem mágoas 2012 afora...

Troquemos presentes sinceramente aceitos. Que nos alegrem, e que possamos ajustà-los, trocá-los, que nos caibam como luvas ou asas. E que o maior deles seja um coraçao, cheio de vontade de acertar...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cio da Terra

Inaciolandia
Uberlandia
Terra em mim

O caminho da terra - Inaciolandia, GO



Eu fui andando para dentro do Brasil
Aviao
Cháo
Balsa
Cháo
e o Brasil é um funil
os caminhos convergem para o centro
o viajante vai entrando suavemente terra adentro.

Assim fui, eu, criatura praiana, fui sendo sugada pela terra.
Indefesa, nascida e criada em terras impróprias para o plantio
em areias de pescarias e maresias
terras escorregadias, que escorregam pela máo,
a terra tragou-me e entreguei-me
à terra fértil do Brasil
Solo firme do Brasil funil
terra laranja que mancha os pés e unhas
terra que machuca a sola e os dedos e os calcanhares
mas que é travesseiro macio onde se deitam plantaçoes

- terra que é máe para as plantaçoes,
já que engole sementes e procria colheitas,

terra feminina terra mulher

imóvel mas jamais inerte

silenciosa em sua linguagem de gestos

- a terra é mulher sem dúvida alguma,

feliz sob o pisoteio de suas vacas leiteiras parideiras.

Afunilando assim esse mar de pasto em mim.

Um sem fim de terra plantda onde atravessam estradas

(a estrada atravessa a plantaçao ou a plantaçao invade a estrada?)

Esse horizonte extenso sereno plantado liso ondulado como o alto mar

paraíso imovel noite e dia
paraíso que anoitece e amanhece exatamente igual todos os dias
nao ha domingo ou carnaval

a terra tem seu ritmo ininterrupto e náo desafina:
plantar colher semear procriar viver
plantar colher semear procriar viver
plantar colher semear procriar viver

e repetindo este mantra vamos pisar no chao para sair da terra e chegar ao céu,
pois viemos da terra, crescemos sobre ela,
e para a terra voltaremos; e esse destino a Igreja nos ensinou que é o céu.

pois tudo vem da terra e para a terra voltará

até a brisa que vem do açude
até as árvores que dáo frutos
a soja a cana o café o milho
o gado o cavalo o adubo
a terra a todos abriga

abriga os bichos que conversam a noite toda e abriga suas noites infinitamente escuras

sem postes de luz sem boemia sem polícia

noites em silêncio respeitoso à natureza rainha

em respeito ao cio da reproduçáo

da terra e do cháo

Entrei assim pelo Brasil.
E fiquei esperando a hora de voltar para o litoral.

Como a hora sempre chega eu voltei

Cá estou, e tem um dedo do pé que náo consigo limpar.

Tem terra e bosta de cavalo nele.

Carregarei orgulhosa este ínfimo pedaço de cháo comigo,

a fertlidade é o prêmio do cio.

- e este é meu dedo de terra fértil no latifúndio de meu corpo histéril

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Suco de Manga

Rio
Que Graça
Maria da Graça


Suco e Violão

Toca violão


- Eu gosto de suco de manga, ele disse.
- Eu gosto de beijo, ela disse.

E beijo acima, beijo abaixo
E suco acima, e suco abaixo

a manga acabou e o beijo continuou

- Eu gosto do seu cabelo, ele disse.
- Eu gosto de seus óculos, ela disse.
- E gosto dos olhos por trás dos óculos, ela disse também

as mulheres falam mais.

E mão no cabelo que se descabela,
E mão nos óculos que se tira,

e mão abaixo,
e beijo acima.
e beijo abaixo
e mão acima.

- Eu gosto de dormir junto, ela disse.
- Eu gosto de tocar violão, ele disse.

E cama abaixo,
e cama acima.
E violão noite adentro,
e violão noite acima.

vida boa com amor e violão


- Eu gosto de você, ele disse.
- E eu de você, ela disse. Gosto de você, cama dentro, cama afora, gosto do beijo, do suco, e do violão.

as mulheres falam mais.

E suco e cama e noite e violão e beijo e mão
e cabelo e óculos e pão
beijo refrão
e toca mão
e toca ele toca ela
e toca o violão

Clareou noite, clareou madrugada.
noite adentro noite agarrada.

som de beijo som de coisa som de violão
cheiro de manga cheiro de coisa cheiro de refrão

sonho cabe na mão

na mão que toca as costas e que toca o violão

sonho cabe no beijo que deixa o cheiro

cheiro de sonho cheiro de namorado cheiro de quarto cheiro de suco

que bom que ela calou e respirou fundo

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Esteticista brasileira

Copacabana City

Melhor, Copacabana World


Mais que depilação


" - Tem alguém livre para me atender? "

É assim que marco hora em salão. Detesto negócio de hora marcada para as obrigações estéticas da mulher moderna. Já que é obrigação, então que seja feita quando eu tenho vontade.

" - Tem a Lu. LUUUUUU, cliente para você !!! "

Este é o sistema de comunicação que funciona perfeitamente nos salões de beleza simplesinhos de Copa - sem T.I, sem telefonia, sem microfone, sem recepcionistas falando baixo. Pegam um lápis preto velho, procuram numa tabela (não é planilha, é tabela), tem uma criatura sem cliente, gritam o nome da criatura e ela vem ao seu encontro.

Luuuu estava ministrando explicações técnicas sobre o bom uso de um produto (caro) a uma cliente. Convencendo-a a comprar. "O resultado é excelente", afirmava. Fui olhada como um incômodo. Seu olhar náo esboçou sorriso algum.

Voltei o meu olhar, igualmente sem sorriso, para a recepcionista.

" - Ela está ocupada. Tem outra pessoa livre? "

Lu contesta, mais meiga. " - Eu vou te atender, gata. Deixa só eu terminar aqui"

Ok. Esta que vos fala estava largada, de vestido velho e havaianas. A pessoa estava feliz assim, feliz consigo, a vida é táo boa. A pessoa pode esperar, também não custa.

Fui enfim conduzida por Lu a uma salinha nos fundos, e observei seus gestos seguros ao preparar o ambiente. Reparei que tinha trato - pele de pêssego, cabelos lindos, unhas lindas, cara lavada e limpa. Aliança de casada, saltos confortáveis, blusa branca impecável. Amansei.

Sentei-me e estiquei sobre a maca (é uma maca sim) as partes que precisavam ser esticadas.

Lu dispara: "- Você não é alérgica não, né? Tem uma cara de alérgica...."

Bem, sou. Tenho alergia a esmalte, formol, tinta, poeira, e a gente baixo astral. Comichões incontroláveis e olhos inchados que mal abrem.

" - Sou, mas náo a cera. Como é que você soube, tenho muita cara de alérgica? "

Aí entendi porque o destino me levou até este salão, a este lugar, e a esta pessoa. Lu iniciou um monólogo, que relatarei aos caríssimos. Respeitarei a pontuaçao original e a gramática peculiar de sua narrativa, e peço-lhes que acrescentem um sotaque cearense às suas palavras.

" - Ah, eu sei conheço muito de pele trabalho com pele e a gente tem que conhecer direito nosso material de trabalho.

(sacode o cabelo)

Graças a Deus desde que cheguei ao Rio e conheci meu marido meu marido é cozinheiro de um restaurante chique esses caro que tem pelo Leblon ele me disse - lu, vai trabalhar com pele esse negócio de você e seus irmãos tomar banho de rio a vida toda vocês ficaram com muito problema de pele e tu sabe cuidar deles muito bem esse negócio da sua mãe ter lepra agora chama hanseníase mas é lepra né isso é problema desse negócio dela tomar banho no rio que a gente pensa que tá limpo mas a gente náo sabe como está por dentro né (sacode o cabelo e arranca cera)

e agora graças a deus eu coloquei água encanada e piso na casa de minha màe porque agora tamo bem mas foi muito difícil quanto era pequena tinha irmão para cuidar por isso tive um filho só náo queria que meu filho cuidasse de irmào que a gente nao pariu mas tem que lavar dar de comer ensinar e ainda apanha de cascudo se fizer algo errado hoje eles tão por aí fazendo merda, a senhora me desculpe o nome é esse que o povo dá e isso eu náo ensinei eles a fazer não mas eles fazem e eu não quero nem sabê eu quero é sabê que minha màe está tomando os remédios e tomando banho no chuveiro com água limpa sem esfregar muito que a pele já tá toda machucada e meu pai tá traindo ela direto ele sempre não prestou era cachaça mas náo tinha mulher na rua náo ela agora tá com depressáo isso é depressáo esse véio devia era de sossegar mas agora que a mulher tá doente nao pode mais fazer brincadeira ele tem que arrumá quem faça

(sacode o cabelo passa cera)

eu sei como é isso meu marido náo passa dia sem brincadeira mas ele é bom para mim vivemos bem sempre rindo sempre bem um com o outro que eu náo vou viver com homem para sê ruim tem que sê bom agora tô meio barriguda engordei um pouco é que agora estou fazendo faculdade de estética e cosmética e fico sentada igual uma porca de engorda mas isso é um sonho não incomoda barriga não incomoda cansaço esqueço até que tô cansada quando chega aula nunca achei que eu ia fazer faculdade minha mãe náo sabe nem escrever e a professora de anatomia mostrou para gente lá na sala que a vagina é só um cano, um cano igual eu coloquei no banheiro da minha màe e ainda assim ela pegou essa doença essa hanseníase que a gente náo fala mas é lepra e os homens se endoidam por causa de um cano homem é bicho bobo coitada de mulher que acredita em homem eles querem é o cano da gente

(sopra o cabelo liso lindo e arranca a cera)

meu marido mesmo é bom mas se náo tiver brincadeira toda noite ele fica de cara feia entao mesmo sem vontade eu faço lá as brincadeira que ele quer porque senáo ele vai arrumar outra e ainda vai me passar doença será que isso que minha mãe tem foi meu pai que passou para ele ou foi o rio que lá em casa fomos criados tomando banho de rio eu digo mãe náo precisa mais agora tem chuveiro ela diz que o rio é melhor eu digo que faz mal a pele dela ela nao ouve ninguém tá sujo

(Cera para lá, cabelo para cá, arraaaanca)

eu tomei banho neste rio até meus quatorze anos e naó tenho nada de ruim na pele nem no corpo todo não até agora se Deus quiser nao vou ter Deus é muito bom para mim me afasta dessas cobra de salão que ambiente de salão é ambiente de cobra elas não querem trabalhar e querem jogar olho gordo em quem trabalha eu trabalho demais gosto de dinheiro gosto de ter tudo na minha casa na minha casa temos muita fartura meu marido faz panela de comida até em cima nordestino tem mania de comida e durante muito tempo botei comida na mesa da casa de pai e mãe hoje entra muito dinheiro aqui mas sai muito também tenho que pagar a faculdade minha faculdade é sagrada ainda tenho muito que aprender nesta profissão que escolhi

" - Vai depilar mais o quê hein? "

porque dinheiro é assim quanto mais sai mais entra a gente náo pode ficar garrada no dinheiro náo igual essa gente de saláo tudo garrado com notinha pequena a gente tem que trabalhar sem pensar no dinheiro

minha vida toda foi assim eu penso no trabalho o dinheiro vem depois

e tô aí tô com trinta e cinco anos meu filho com quatorze grande já com cabelo no sovaco me chama de dinossaura eu gosto acho engraçado eu nunca pude brincar com minha mãe se falasse alguma coisa era pecado ser alegre náo é pecado a vida náo é só obrigaçao trabalho náo é obrigaçao trabaho é bom e daí que vem tudo nessa vida do nosso trabalho destes braços aqui e dessas mãos que você tá vendo

" - E a senhora está com quantos anos hein? " tem um pele de trato a gente que conhece vê que trata bem que passa creme bom que come bem que bebe água limpa gente que nasceu bem nessa vida graças a deus eu já sofri mas agora tô bem vivo bem como bem durmo bem estudo trabalho ganho dinheiro crio meu filho direito sem obrigaçáo crianca náo pode ter obrigaçao náo só estudo e divertir com os amiguinho eu nunca que tive amiguinho era tudo socado em casa cozinhando lavando passando apanhando eu me livrei gracas ao meu trabalho primeiro o trabalho depois vem tudo e essas cobra de salão náo me morde com o veneno delas náo gente de salào é tudo cobra mas elas engolem veneno delas e morrem antes de mim"

Quando ela respirou, ele me olhava com olho de pergunta, com esse olho meio de índio que todo nordestino tem, esse olho que enxerga as coisas do chão, do céu, e da mata, esse olho que olha a gente sabendo a resposta e sem chance de enrolação.

Respondi. Ela prosseguiu.

" ah você faz academia está bem está com tudo em cima, faz não? então isso é garotáo hein mulher de quarenta assim bem igual você é garotáo garotáo é um negócio melhor que cirurgia para mulher ficar bem mas às vezes é caro também

(gargalhada cabelo para trás)

né tudo que é coroa aqui de copa tem um garotáo aqui nesta sala elas me falam tudo aqui nesta salinha só eu sei o que eu ouço fico quieta cada um sabe do que gosta mas eu náo vou querer garotáo náo vou querer meu marido mesmo dinossauro igual eu

(rodopia)

"- Pronto, acabou, tá aqui meu cartão e sua fichinha, vou na porta com você.

Eu náo tinha o que falar. Estava sem voz, sem fala, sem ar. Paguei, gratifiquei, abraçei Luuuu e saí.

O ar de Copacabana pareceu-me mais limpo, mais leve, o Rio limpou. E eu tive orgulho de ser brasileira, raça de gente guerreira, raça de mulher guerreira que vence miséria vence desamor vence mãe vence pai vence cachaça vence irmão para criar vence cobra, vence vida vence brincadeira sem vontade vence dia de trabalho, vence aula cansada vence com força vence todos os dias.

Vence, Lu. Você veio, viu, venceu. E vence bonito, vence mais que eu quero ver.

domingo, 27 de novembro de 2011

O talento de todos nós

Rio
mas é profundo
então é oceano
Oceano inteiro


Tornar-se

ELIZABETH GILBERT, em um video fantástico sobre o gênio que todos temos dentro de nós, assistam, é imperdível

Não sei quem nos manda recados lá de cima. Se é Deus, Jesus, Maria, ou o Espiríto Santo. Pode ser que venham sinais de Krishna, ou de D'us, como dizem os judeus.

Mas que existe uma Central de Recados Astral e funciona 100%, 24 horas ao dia, de segunda a segunda, ah, isto existe.

O primeiro recado chegou para mim na peça Alma Imoral. O rabino Nilton Bonder, através da deusa mundana Clarice Niskier, nos conta a parábola de outro rab, cujo temor, na hora de morte, era que Deus lhe perguntasse porque não foste quem era.

O segundo recado chegou no livro velho, da faculdade, cheio de poeira, onde reencontrei o famoso conselho de Nietzche: "Torna-te quem tu és."

E o terceiro recado chegou hoje. Especialmente hoje. Assisti a escritora Elizabeth Gilbert em seu video sobre o processo criativo, disponível a rodo pelo you tube. Poderia tê-lo assistido antes, mi hermana o havia enviado hace tiempo, pero nó, solamente hoy, o video rodou sob meu olhar hipnotizado. Parei para ouvir, ver e acreditar.

Eu estava me preparando, ou sendo preparada, pela tal rede de conspiração universal, certamente. Era chegada a hora em que as palavras da autora genial acertariam meu coração.

A bela escritora fala com fluência e tranquilidade sobre o processo criativo. E sobre o momento seguinte ao sucesso da obra - a cobrança do público, da mídia, e de si mesma, por mais arte, com mesmo valor e qualidade da obra maior. Desenvolve o tema, e ao fim, e foi aí que vi, e digo porque vi, que o tema dizia respeito a todos nós, que não somos bem gênios da criação, mas temos nossos talentos - "quem baila, baile. Quem escreve, escreva. E no dia seguinte faça de novo. Alegre-se pelo que criou, e que isto seja bom para você."

E eu digo que isto é muito, muito maior que parece. É fazer o que se gosta, da melhor forma, e constantemente. Encontrar satisfação espiritual no que se faz. Fazer o que Deus te deu para fazer, fazë-lo bem, sempre, do melhor jeito e com a maior entrega, sem meias palavras ou meios termos. Ser quem se é - bailarino, escritor, cantor.

Sem medo de ser cobrado. Sem medo de ser vaiado. Sem medo de não ser compreendido.

Jogar-se para fora de si. Tornar-se, entregar-se a si mesmo. Chegar ao melhor de si, com leveza, com verdade, tocado por Deus.

Aos artistas, criativos, tocados por dons especiais, o conselho da mestra.

Os queridos leitores podem agora dizer: " - Bem, isto não é para mim. Não sou artista, nem pretendo."
Engano, claro engano. Todos somos talentosos. E se ainda não descobriram seu talento, caríssimos, não se preocupem. Posso jurar que existe ao menos um, o mais importante e decisivo talento, que nos compromete e nos persegue enquanto não se realiza.

O maior talento que temos, caríssimos, é o de ser feliz.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Voando para o paraíso

Rio
Mar
Rio
Flor
Rio
Rio de Amor


Que loucos caminhos nos levem ao paraíso
Foto: Revista Geográfica Universal
É preciso asas para chegar até aí



Que passe por mim esse Rio,
porque já náo tempo para nada,
que náo seja Amor.

Cansada de ver dias passando iguais
Tediosos dias
Dias imensos, explicados por palavras iguais e suas 24 horas iguais

Dias táo lentos que náo conseguiam partir
tão arrastados que náo conseguiam passar pelas suas próprias 24 horas

Que venha o beijo,
porque hoje o que interessa é o sabor do beijo
Não tenho tempo para nada que náo beijos.

Os problemas insolúveis foram rasgados
E eu fiquei olhando os mil pedaços cairem no cháo
e misturando-se ao pó da estrada.

E como tudo se transforma,
eu quero também me transformar.

Em um ser mais leve, com asas
Criatura necessariamente mais livre
Pois são essas as mais recomendadas para voôs sobre paisagens cinematográficas.

E eu de fato quero chegar ao paraíso,
ainda que por loucos caminhos.

E assim transmutada hei de escapar de mim sendo quem ainda náo fui.

Eu mesma, a quem a vida quis ensinar
e que teimosamente não quis aprender.
Eu que sou móvel e estive imobilizada.

Não tenho mais a minha idade nem a minha dor.
Sou mais jovem que ontem e mais sábia que há anos.

E não tenho mais tempo nenhum para dor.
Urge que eu seja mais feliz.

Urge que eu tenha asas.

Eu não tenho tempo
nem vontade
nem nada

- em mim náo tenho nada que náo seja Amor

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A pele que habito

Rio
Flamengo
Bandeira
Banderas


Antonio Banderas e Elena Alaya, em cena do filme "A Pele que Habito", inspirado no livro "Tarântula", de Thierry Jonquet

Nesta vida, há dor.
Curada, fortalece.
Cultivada, enlouquece.

Almodóvar vem nos falando das dores e das loucuras da alma humana. O ponto de partida e as suas consequências, sendo a mais comum, a a vingança. Assim, sob o cenário da normalidade, o fantástico espanhol vem nos convencendo que o ser humano ferido não perderá a oportunidade de vingar-se, e é bem capaz de planejar e executar planos mirabolantes com a maior tranquilidade. Sua obra é assustadora por revelar as possibilidades de vidas invísiveis sob a vida cotidiana. Como identidades secretas. O ser humano mais pacato e gentil tem uma segunda personalidade. Tem uma loucura que corre sob sua pele.

Mas neste filme, há mais fantasias que loucura. A loucura tem lógica, e as fantasias não.

A loucura tem motivos e objetivos, e é muitas vezes mais certa que a razão: presente, forte, perseverante, empurrando o indivíduo vida afora.

A fantasia não. A fantasia é coisa que não se explica, que não se realiza, que existe e não sabemos onde. A fantasia é coisa que distrai, que atrapalha, que engana.

Neste filme briguei com Almodóvar: ele filmou a fantasia alheia, outro autor, outra mente. Faltou a certeza simples de sua loucura, loucura boa, que a gente entende e até acalenta.

A arte imita a vida. Quando assumimos nossa loucura, há convicção, há entendimento. A loucura alheia não nos convence, não nos cabe - como uma pele que não é nossa.

Não me convenceu. Não dá para um cirurgião plástico transformar o estuprador de sua filha na mulher que ele um dia amou e que morreu em trágico acidente, na fuga com seu amante que vinha a ser seu cunhado, irmão de criação do cirugião. Na esteira desse samba do crioulo doido, o elegante Doutor é um cientista que usa o ex-rapaz como cobaia para operações de mudança de sexo. Neste meio tempo percebe que a vítima o deseja e entrega-se então. Há elementos demais nesse emocional, e algum deles precisava ser cirurgicamente removido. Não.
Não dá. Não dá para um homem transformado à força em mulher ficar tão delicada e suave quanto a pétala Elena Alaya. A feminilidade não reduz-se tão somente ao físico. Preferia ter visto um ator travestido neste papel, preservando algo de masculino, que nenhuma cirugia e nenhum confinamento pudessem ocultar.

São muitas afirmativas incoerentes num mesmo filme. Incompatíveis loucuras.

Bem, olhando assim, a arte imita mais uma vez a vida.

Então devemos assistir por Banderas. A visão de Antonio, trajado como um príncipe, saindo de uma mansão para um jardim noturno vale cada minuto da loucura, da fantasia, com nexo ou sem nexo. As mulheres devem ir para suspirar. Os homens, para aprender com ele.

Confesso que fui por Banderas. E fiz bem. Entre Banderas e o mundo, Banderas.

Ele, Antonio Bandeiras. Aí sim, motivo, loucura e fantasia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

VAMOS CASAR

Rio de Janeiro

2011

Qualquer bairro
Qualquer cançáo
Mas tem que ser na primavera


Um casal e os Dois Irmáos, amores verdadeiros, como Ipanema, como a Primavera
Foto de Ana Schneider, clicando o amor espalhado no ar


Caríssimos, vivemos ingrata época de amores vãos.
Ama-se em váo, visto que amor sem amor é em vão, é besteira, é masoquismo, é esquizofrenia. É frustração. É tanto, tanto, quanto menos amor.

Conhecemos pilhas de histórias de amigos de amigos, de amigas de amigas, e primas e vizinhas e próximos e distantes, que se estreparam, literalmente, em recentes tentativas de amor. Conhecemos também as nossas doloridas histórias.

Mas é primavera.
E eu soube de uma história. Náo vi. Mas ouvi, e foi pessoa séria quem falou.

O sujeito, assim, ainda meio cafajeste. Queria evoluir, mas muita tentaçao o afastava de sua nobre intençao. Conhece uma... bem, uma periguete. Coisa de noite e meia, no máximo, mais um telefone na agenda e mais uma noite na curta memória.

Mas é primavera.
E o amor, caríssimos, está no ar.

E ele inspirou fundo. Encheu os pulmóes de ar.

O namoro engatou. Ele esqueceu que foi um dia, distante dia, um cafajeste, e ela, encantada com a possibilidade de amar e ser amada - a única possibilidade que de fato importa e modifica as rotas do ser humano - rendeu-se, e abdicou de velhos hábitos.

Em três meses, conheceram-se, namoraram, e casaram-se.

Mais náo digo.
É primavera.

Seguiráo? Sofreráo? Seráo felizes?
Náo sabe-se. Sei que neste mundo de tantas ressalvas e duplicidades, e confusões, e mal entendidos, péssimas explicações e justificativas capengas, há um casal que derrubou as regras da contemporaneidade do amor - casar. No papel, sem festa, com pressa, com convicção.

Antes que cheguem os problemas e os questionamentos eternos que nada esclarecem.

Antes que passe a lua-de-mel.

Antes que passe a primavera.

Em primeiro lugar, a dignidade

São Conrado
São Beltrame
São Sebastiáo do Rio de Janeiro


O Camelódromo da Rocinha
Foto: blog olhar direto

" RIO - Sem pagar impostos ou oferecer garantias trabalhistas aos seus funcionários, 90% dos cerca de 6.500 empreendimentos existentes na Rocinha hoje são informais. O diagnóstico é do superintendente do Sebrae Rio, Cezar Vasquez. Para ele, a pacificação derruba uma série de barreiras e abre oportunidades para empresários, de dentro e de fora da favela." (O globo on line, em 15 de Novembro de 2011)

Eis a questáo.
Saiu o tráfico, entrará a Receita Federal.

O comércio informal (ilícito) da Rocinha movimenta milhòes. E o Leão, Dilma e seus camaradas estão fora deste saboroso bolo.

Pela sua privilegiada posição geográfica, com farta condução para Zona sul, Centro, Barra, Zona Oeste, a Rocinha tem um altíssimo contingente populacional empregado na economia formal. É empregado que interessa ao empresário, seu vale transporte é barato, então bóra assinar a carteira do pessoal. São milhares de trabalhadores, que saem do gueto para trabalhar e voltam com dinheiro no bolso para casa, (pouco ou muito, náo interessa), dinheiro no bolso, e àvidos para consumir. Pagavam bem para morar em meio ao tiroteio - os aluguéis eram relativamente caros, chegando a equiparar-se a preços de bairros bastante disputados pelo asfalto afora. Lugar privilegiado, São Conrado, vista deslumbrante. Com a dominação policial e militar valerá mais ainda.

E o Estado já identificou uma galinha gorda, imensa, com ovos de ouro incubados.
Ainda náo vi reportagem alguma sobre projetos (concretos) de saúde e educaçao; mas já vi esta belezura: a Rocinha pode se tornar o maior pólo comercial da Zona Sul, um Saara da Zona Sul. Receberá incentivos fiscais? Tarifas diferenciadas? Estímulos?

Ai, Jesus. No Rio, recolher e conferir impostos envolve mais agentes públicos (muitísimo bem remunerados) que a Saúde e a Educaçáo ( muitíssimo mal remunerados).

Acudam, Santos Cariocas. Deixem o camelódromo da Rocinha lá embaixo por ora.
Em primeiro lugar, as primeiras coisas, como diz sábia amiga. Comecemos com as Escolas e Creches em tempo integral. Com um Posto de Saúde equipado, bem lotado com ótimos profissionais. Com saneamento, com limpeza, higiene. Essas sáo as garantias de dignidade do cidadáo.

Priorizar pólo comercial, inverterá mais uma vez os valores: duvido que os impostos ali arrecados revertam para a comunidade. Nunca reverteram, e os traficantes se fortaleceram: o dinheiro tem que aparecer, e se náo vem de fontes legais, virá de fontes ilegais.

Que o Estado providencie o que é de sua prerrogativa providenciar. Não se preocupe com o pequeno comércio; o mundo ocidental aprendeu, desde 1751, o laissez faire, laissez passer. Estamos atrasadíssimos.

Não é hora de contar os tostóes da Rocinha. É hora de libertá-la da sujeira e das barreiras de acesso ao conhecimento e capacitação, impostas à sua populaçao por um Estado omisso e cruel. A comunidade 'roceira', educada e saudável, enriquecerá orgulhosa. Passará de mào de obra barata para mão de obra qualificada, estou certa disso.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um conto chinês

Flamengo
Vai, Darin
Me conta um conto, que eu te conto...


Darin e Ignacio Huang, em seu conto chinês

Os deuses tem várias formas de nos contar o que precisamos ouvir.
E repetem seus recados enquanto acreditam na gente - é melhor portanto, ouvir logo o conto do Darin, e sair do cinema com a leveza e a surpresa dos que presenciaram uma preciosa revelaçao.

A vida tem de fato sentido. Há sentido, nexo, causa e efeito em tudo, em absolutamente tudo que existe, existiu e existirá ao nosso redor. Chineses e argentinos, americanos e árabes, judeus e alemãos, a humanidade náo tem raça, a humanidade tem gente, e gente que precisa de gente.

Gente que precisa aprender a amar. Gente que precisa aprender a deixar-se amar.

Descolar dos sofrimentos, ultrapassá-los interiormente, desprender-se de idéias arraigadas, que arrastam a energia solo adentro.

Escolher novos caminhos e partir por eles, seguir, caminhar, respirar. Avançar.

Transformar-se em uma pessoa mais feliz.

O destino coloca as peças sobre a mesa. É o jogo da felicidade.
O tabuleiro é o tempo, e as peças estáo à sua disposiçao. Tem a peça em forma de chinês, tem uma vaca, tem uma porcaria de uma caixa de parafuso. Tem o sorriso da moça, e tem o jornal velho com uma notícia trágica. E tem o tempo passando, dia após dia, noite após noite, sem que o homem mova uma peça sequer.

Inspirei-me.

Inspiradores sentimentos tomam conta de mim. Posso até culpar os olhos azuis do argentino. Posso culpar meu coraçao mole, minha tendência a romancear tudo. Culpa também desta língua espanhola que imprime música e poesia aos aos diálogos mais simples.

Assim deu-se com as palavras simples e diretas de Mari, como devem mesmo ser as palavras e o amor: "Você é ranzinza, rabugento, ermitão, justo, bom, corajoso, e tem esse olhar que me mata". Mari, sí, sí, escolheste muy bien. Esse texto em espanhol arrebatou o rapaz. Suas palavras quase cantadas ficaram em seu coração resistente, como devem mesmo ficar as palavras e o amor.
Muriel Santana, Mari, prática, oferecendo o que há de melhor nesta vida

Sinto-me obrigada a confessar que a cena de Darin caminhando pelo campo ao encontro de sua amada, pronto para amar e ser amado, tirou-me o fôlego.

Mas o que me inspirou está além disso - o filme alimenta o senso de que os justos seráo felizes. Para os que duvidarem, os deuses mandarão mensageiros, que talvez nem falem sua língua, e tenham outra cor e outros modos, e outra idade, e sejam também sobreviventes.

Talvez nem falem, só desenhem.

Os mensageiros estáo por aí, cairão em sua frente, perseguiráo seus pensamentos. Náo temos como escapar.

Escutem o aviso do destino e estejam atentos - o Amor vai chegar, chegou, e está por aí.

Ricardo Darin, o Roberto, atento

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um homem para chamar de seu

É
Parque Lage
Para lá se vai
Espantar a Solidáo

Foto: Anna Schnneider, da série Domingueiras da Primavera

Caríssimos, não sei quem é a moça da foto, e espero que ela náo se ofenda. Deve ter nome, endereço, identidade, profissáo, claro, mas nesta foto e neste blog ela náo tem um nome. Tem muitos, de muitas e muitas brasileiras. Lista longa.

O olho mágico da fantástica Ana, em suas aventuras dominicais, registrou seu breve enlace com o homem de ferro. De metal, homem sem sangue e sem coraçao, uma mera forma masculina sem alma, tal qual congêneres disponíveis no mercado. Um segundo olhar descreve melhor nossa protagonista desta cena rotineira: é uma pessoa de um certo trato, no mínimo. Cabelos brilhantes, pele alva, vestido longo (está na moda), pés claros em sandálias aparentemente novas.

Um terceiro olhar assusta. Ela está encostada, com a displiscência dos que sentem-se muito bem e à vontade, em um homem que náo tem vida. Aprochegada, como dizem por aí. Cena de um casal em manhã de domingo, aquela horinha morna ainda preguiçosa em que um lê jornal, o outro comenta. Depois trocam de cadernos, conversam, minutos passando aos poucos, váo aproveitando que náo tem hora, nem criança, nem mercado, nem banco, nem trânsito,nem chateaçáo. Só que neste domingo, e neste banco, a moça é real e o homem náo.

A moça é de carne e osso, e o homem náo.

O homem aí da foto, náo tem vida. Náo se apercebe dela. Vantagem, pois indiferente que é, não reclama que ela encostou no ombro doído, nem que está com calor, e nem que ela está amassando o jornal. Nem que ela náo esteja dando-lhe sua táo merecida atenção. E mais, meio que oferece o jornal para que leia. Vejam, ele está discretíssimamente inclinado em sua direçao. Ela entáo continua, feliz, no mesmo banco, ao lado deste homem calado. Homem fake. Homem que náo existe para ninguém, a náo ser para ela e para o departamento de parques e jardins de nosso município.

A estátua é fria, inerte, inútil, mas serviu para iludí-la. Náo há, neste aspecto, tanta diferença para os demais representantes (animados) do gênero. A maioria deles, inclusive, estaria dormindo neste horário, pois a primeira criatura a quem deve satisfazer, é sem dúvida, Elezinho mesmo. E você, caríssima, tinha a ilusão de que seu namorado faria-lhe companhia.

Há outras moças solitárias no domingo. Incompreendidas fêmeas, que nessa manhã, e em várias outras, adorariam ter um representante do sexo oposto, vivo, inteligente, e interessante, que náo reclamasse ou impusesse condições para breves momentos de paz. Que deixasse o domingo passar sem muito esforço, assim, como quem lê um jornal em boa companhia.

Os próximos capítulos seriam especulações dessas suas colegas, as formandas da Escola Solidáo. Sós, e mui perspicazes senhoras. Afirmam, com a propriedade dos observadores: independente de todo o resto, a moça da foto, no banco da praça, no domingo de primavera, no Parque Lage, numa linda manhá de sol, ah, ela tinha um homem para chamar de seu.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ri, Palhaço

Leblon
Passos
Montes Claros
Selton
Mello

Selton Mello, Palhaço Pangaré


Vi Selton de Palhaço.
Vi Paulo José de Palhaço.

E vi o Circo Esperança, esperança e certeza, e já sinto saudade. Psssou por mim, vi o circo passar, pedi para ficarem, náo me ouviram.

O circo seguiu para Passos, e eu segui os meus passos, mas levei Esperança comigo.

Pensei que fosse filme, mas náo é. É poesia.
A poesia simples, de poucas palavras e valiosos olhares.
A poesia do jovem cineasta e do velho ator, os cavalheiros Selton e Paulo José, homenageando velhos ídolos esquecidos pelo público, tantas vezes ingrato. Um toque de classe. Esses palhaços elegantes váo misturando atores de hoje e de ontem, e oferecendo-os ao espectador aos pouquinhos, um pouquinho aqui, e ali. Quem náo quer um pitaco de Ferrugem, de Jorge Loredo, de Moacyr Franco? Quem náo quer Tonico Pereira e Teuda Bara? Um bom pedaço de Jackson Antunes? Na homenagem prestada, quem ganha é o filme.

Filme náo, poesia. Poesia ainda mais sonora com a música de Plinio Profeta, música de realejo, de artista de rua, de fanfarra. Música que rima.

O filme é arte pura, do enredo à sua realizaçào. Dos percalços que garantiram o sucesso - Wagner Moura náo pode aceitar, Rodrigo Santoro náo quis. Selton entáo, pegou o palhaço para si e fez o melhor palhaço que já vi. Misturou Chaplin e Oscarito, e trouxe o Chicó, do Auto da Compadecida. Pangaré é o palhaço talentoso do circo pobre, neste Brasilsáo pobre, nessas estradas pobres. Pangaré há de ficar na história, ele e seu sonho simples de um ventilador, de um amor, de uma carteira de identidade. De dormir em paz.

E fez também um homem no picadeiro, brasileiro como nós, buscando ser feliz neste país imenso, pobre, vazio. Buscando ser feliz ele mesmo.

Quem quiser que vá ver. Mais náo digo. Quem souber que responda, onde está o Circo Esperança?

Pangaré e Puro Sangue

Quero vê-los mais uma vez, quero ver a menina princesa da lona, sentar ao lado da mulher do prefeito. Quero esconder meu dinheiro da cigana traiçoeira. Trago a Esperança de ir ao circo com meu amor, comer paçoca com ele. Esperança de rever Pangaré e Puro Sangue.

Esperança para rir de mim, de meus sonhos esquecidos. Rir do que náo fui, do que eu náo soube ser.

Quero rir da dor que me atormenta o coraçáo.

Porque sem rir, o sonho é amargo, e a vida é estrada empoeirada.
É estrada longa, canavial afora, que vai dar em nada, nada do que se queria encontrar.
Sem riso a vida é cansaço, a vida é pinga barata. É bolso vazio, é só calor sem ventilador,sem beijo, sem namorada.

Mas se há palhaço no circo há a certeza - ou esperança - de que cada coisa está no seu devido lugar.

Náo adianta palhaço querer ser atendente de loja, e dormir sozinho no quarto vazio. Lugar de palhaço é no circo. Palhaço é palhaço e náo é ladráo de mulher.

E Selton náo é Woody Allen nem Almodovar. Mas está deixando seu nome no cinema, e no coraçao do espectador brasileiro. Gato bebe leite, Rato come queijo, e Selton faz cinema.

Selton

Que descansem em Paz

Dia de Finados
Feriados
Findados

Rio de Paz
Descansem livres


Dia de Finados. Falecidos, enterrados, lembrados.
Dia dos assuntos encerrados.

Dia dos perdoados.

Os que foram bons, viverão para sempre, livres, pelo espaço sideral.
Os que foram maus devem estar pagando, um a um, seus cruéis pecados.

E aqueles que náo foram de todo bons, nem de todo maus, que foram humanos, simplesmente humanos? Por onde devem andar? Maioria. Não somos classificáveis, como os pássaros, que pertencem a esta ou aquela categoria.

Somos misturados.

Dentro do corpo, ou por fora, ou por cima, vivem as almas. Latejam.
Quem conhece a Lei das Almas? Como julgá-las, quem as julgará? Deus? Conhecemos sua infinita bondade. Sim?
Neste mundo de guerras e doenças e injustiças? Sim?

Não sei. Nesta Terra há gente viva que merecia ter morrido, há muito tempo. Como diz meu amigo juíz - "Conheço a maldade do mundo". Eu também, caríssimo amigo, e ela está solta sobre a superfície, visível, e entremeada nas entrelinhas, disfarçada, conspirando. Há muitos maus que estáo vivos.

E no céu, se há céu, há gente morta que merecia ter vivido mais. Nós, ainda vivos, merecíamos tê-los mais um pouco por aqui. Sua obra era importante, seu exemplo era importante. As Leis da vida e da morte, suas datas e tolerâncias, essas náo sáo conhecidas.

Enquanto esses pensamentos batem asas, desejo que o melhor que há em muitos viva para sempre, e possa combater o mal; e que o pior de todos nós se vá, o quanto antes, batendo asas, para outros e distantes mundos.

E que entre vivos e mortos nos salvemos todos, e estejamos em paz, aqui, lá, sei lá onde, onde seja possível voar.

domingo, 30 de outubro de 2011

O figurino da nigth

Rio,

Copa,
Mar,
Atlântica
Del Mar


Somos diferentes


Meu amor que me desculpe, mas vou desobedecer e comentar.
Ele disse - que besteira, tanta coisa mais importante para dizer.
Náo sou de retrucar, sou da antiga, gosto de atender, e ele há de me perdoar.

Estou intrigada. Há agora um uniforme para a mulherada sair `a noite?
Eu digo porque vi umas sessenta, cem, muitas, todas vestidas iguaizinhas: saia curta, curtíssima. Blusinha decotada, decotadíssima, justa. Pode ser um vestido, pequeno, pequeníssimo, que dá no mesmo. Ou preto, ou bege, que agora resolveram chamar nude. Para mim, é bege.

Todas de pernáo sarado e saltos bem altos. Entendi o cumprimento das saias, afinal, de que adianta malhar se náo for para mostrar, náo é mesmo?

Louras, na maioria, o Rio deve ter sido invadido por alemàs e austríacos há vinte anos, a História náo documentou, mas vieram e deixaram filhas, porque há uma geraçao de louras.

Em que isto me intriga? Ora, o figurino caracteriza um personagem. Ao entrar no palco um Rei, sabemos que é um Rei porque usa coroa. Nesta linha, ao entrarem as moças, sabemos quem sáo pelo traje - estamos diante da personagem piriguete. Clones das panicats. A sonoridade da palavra é também semelhante.

Isto me apavora. Pelo lado moral da coisa mesmo. Sáo prostitutas? Náo sáo.
Mas o traje é o delas - curto, nu, justo, subindo. Porque uma moça deseja parecer prostituta se náo é? Para ser aceita pelo grupo? Agora é moda parecer prostituta? Francamente, vamos respeitar a profissáo mais antiga do mundo. Quem é, que seja, mas quem náo é, náo use o uniforme que náo lhe pertence.

É uma irmandade de iguais. Cabelos, roupas, comportamento. Náo há saia com mais de um palmo, nem salto com menos de 20 cm. Até os perfumes sáo os mesmos - 212, tommy, ck.
Onde está o estilo? Onde está a identidade? Onde está a marca da sua personalidade?
Onde está a sua cara?

Em lugar nenhum. Todas aparentam a mesma idade, todas aparentam ter os mesmos hábitos - sol, musculaçao e cabelereiro - náo sei quem faz arquitetura, quem faz engenharia, quem faz teatro. Quem náo faz porra nenhuma. Náo dá para perceber, se estudam ou náo, se trabalham, ou náo. Náo há sinais exteriores de quem sejam. Estáo uniformizadas de corpo e alma, e escolheram unânimes o mesmo personagem.

Estáo limitando-se, copiando-se. A coisa pode náo funcionar bem. Vamos lá. Para um roteiro de teatro, personagem distintos, Esposa, amante, secretária. Para uma empresa, cargos distintos: o contador, o vendedor, a recepcionista. Para uma festa ser interessante, há que ter pessoas interessantes; os iguais náo oferecem troca, náo há crescimento, náo há curiosidade. Os iguais sáo chatos em sua repetiçao de si mesmos.

Pelo que vi, náo adianta levantar bandeiras de diversidade sexual. Temos que levantar a bandeira da diversidade dentro do mesmo gênero sexual. As mulheres podem, e devem, ser diferentes entre si. A beleza tem cores e formas várias, como as flores, pequenas, grandes, claras, coloridas. Náo há só margaridas. Há vitórias régias, há cravos, orquídeas. Podem escolher personagens diferentes, a intelectual, a professora de jazz, a atleta, a moça de família, a transgressora, a inquieta, a simpática.

O brasileiro, macho estereotipado toda vida, continua a rejeitar o que é diferente. Fixou em sua mente este formato, e as meninas estáo tentando se encaixar. Quem náo couber no molde, encalha. Bonecas em série.
Falta rebeldia nesta geraçao feminina. Falta questionamento. Anos de conveniência modelaram corpos e mentes.

Gostaria de ver uma geraçao mais critica. Mais ousada. Menos uniformizada, mais criativa, com mais orgulho de si mesmas, e coragem para usar - e viver - o que quiserem.

Elas podem ser estilosas. Beyonce linda, em visual diferente do seu habitual

sábado, 29 de outubro de 2011

Noel, feitiço bonito da Vila Isabel

Rio

Leblon

- Cafë, madame?
- Sim,Café Pequeno

NOEL - FEITIÇO DA VILA de Andreia Fernandes.
Cia de Theatro Musical Brazileiro. Dir. Édio Nunes e Jorge Luis Cardoso. Dir. Musical Wladimir Pinheiro. Teatro Café Pequeno.


O apito da fábrica de tecidos me chamou. Fui, assim, meio fugida do dia, meio apressada da noite, e entrei.

O palco é pequeno, mas o talento é grande. A Cia de Theatro Musical Brazileiro está aí para provar: nada substitui o talento, já foi dito e aqui repito. Pouco espaço e muito talento tornam o espaço suficiente – um varal é cenário, um lenço é figurino. Um violão, bem um violão é um universo na máo deste elenco.

Encontrei Noel, encontrei Aracy, encontrei Patricia Costa, esbarrei em Cartola e Ismael Silva. E aí, caríssimos, náo encontrei mais ninguém. Perdi-me na boêmia da Vila Isabel de um tempo bonito.

A história deste gênio da notas musicais foi contado por outros, em outros palcos, e talvez com mais recursos financeiros. Não sei dizer se com tanto capricho. Capricho de malandro, que sabe que é no detalhe que se ganha a confiança. É no miudinho do samba que o mestre se mostra.

Com mais foco na música que na dramaturgia, o espetáculo passa como a Vila Isabel na avenida: belo aos olhos, aos ouvidos, ao coração. Lindo de se ver e de cantar, e o público assiste a um show de Noel e a uma peça sobre a sua vida pelo mesmo ingresso. Não há adereços luxuosos nem carros alegóricos fenomenais, há um varal e vê-se o Morro. Há cadeiras e garçon, e vê-se o bar. Moças enfeitadas e malandros, temos um cabaré.

A simplicidade funciona, caríssimos, e isto é fantástico. É a liberdade da expressão do artista, sua independência de orçamentos e patrocínios. Seu talento.

Pedro Arrais é um Noel irresistível, talvez o rapaz seja belo demais para o papel, afinal, Noel tinha o maxilar direito deformado pelo fórceps que o trouxe ao mundo. Em seu favor, precisamos lembrar que Noel seduziu cabrochas experimentadas, o que exige qualificações; então que seja Pedro Arrais o Noel de hoje, seduzindo com sorriso, chapéu panamá e sapato bicolor. Branco como Noel, sedutor como um malandro de gafieira. Quem viu, concorda, e como.

Francisco Alves, voz de ouro, era um explorador de iniciantes, e um canastráo de primeira. Gabriel Titan nos convence disto, e canta de verdade, com graves brilhantes de dar inveja. Vejo nele o cantor que atua, ou o ator que canta. Uma voz dessa náo pode se calar. Estamos na era dos musicais, está para ele, ponto.

E como se náo bastasse, há Patricia Costa no palco.

Atriz que vai de Aracy de Almeida a cabrocha da Mangueira; que vai de lavadeira a estrela brilhante. Aracy, reconheçamos, deve ter sido pioneira em sua macheza na roda da malandragem, e era feia de doer. Patricia esteve perfeita no papel. Cabelão sem trato, calça reta, óculos fundo de garrafa. Bicando cachaça e cuspindo no cháo. Em dois minutos sai de Aracy e volta de estrela. Irreconhecível, elegante, metaforseada, chiquérrima. Afinadíssima, suave, ela entorpece a platéia com a melodia e a poesia dO Apito da Fabrica de Tecidos, e neste momento, todas nós queríamos que a moça da fábrica, artigo que náo se imita, desse bola para Noel Rosa.

É isso. O talento da transformaçao - Aracy vira Patricia, Pedro virou Noel e Gabriel virou Francisco Alves. E o elenco todo deu seu melhor. Entre iniciantes e experientes, todos eram o povo da Vila, da Mangueira, do Morro dos Macacos em tempos de paz e samba.

Parabéns aos diretores, atores, músicos. Provaram que não precisa ter 200 pessoas no palco. Bastam 13. Basta um bom roteiro. Basta bom gosto.
Basta um Brasil, rico em artista talentosos.

Basta o ilustre Noel Rosa, que luxo.

O ótimo elenco, na cena da despedida - volte logo, Noel

Nota - meu avô, orgulhoso morador da Rua Teodoro da Silva, coração da Vila, teria curtido muito, ah, teria.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Espera que é hora da FESTA

Rio de Janeiro

Rio, rios, janeiros, outubros...junhos...

Esperas
"Quem espera sempre alcança" - Sei não



Desenvolver tolerância e paciência. Exercitar a humildade. Exercitar a virtude da condescendência. Evoluir. Perseverar. Ter consciência da simplicidade da vida diante da amplitude do universo.

Muito que bem. Vamos praticar.

Você é convocado, caríssimo, intimado ou notificado, sei lá a nomenclatura correta, e precisa depor na Justiça do Trabalho. Você sabe da importância de seu depoimento. Você tem um documento oficial em mãos com o selo nacional, seu nome completo ali, printadaço, e você, portanto, vai depor.

Audiência às 13:50. Você chega às 13:15.

Fila no prédio moderno da Rua do Lavradio. Fila para o elevador, fila andando, rápida, você até se anima e pensa que hoje não será como das outras vezes em que esteve aqui e não pode registrar sua narrativa nos autos do processo. A primeira vez houve uma coisa qualquer que precisava ser corrigida pelos senhores advogados; na segunda vez a justiça estava sem sistema, fato impensável, visto que a justiça é a garantia do sistema.

Bem, você então chegou antes da hora e aguarda o momento em que poderá abrir a boca e dizer o que viu, especialidade minha.

Às 15:00 seu nome é anunciado em um microfone desafinado. Meio assustado, você adentra a mesma salinha conhecida. Uma senhora juíza em trajes de onça e cabelo acaju diz-lhe, que o processo é muito longo e que não sabe se ouvirá todas as testemunhas, até porque, a escrivâ, funcionária concursada da justiça,tem uma FESTA, e precisa deixar o recinto Às 17:30 no máximo. FESTA. FESTA. FESTA. Palavra inacreditável que ecoa na atmosfera judiciária. Pronunciada com o tom solene atribuído a CONDECORAÇAO, talvez, mas foi FESTA mesmo a palavra que ouvi. Sem outra opção, e atônito, você volta para a sala de espera. Pode ser que tenha aguardado estas horas em vão.

Às 17:00 você é informado que de fato não será ouvido. Sabe-se que a escrivã tem uma a FESTA e você vai para casa, para o trabalho, para o raio que te parta, porque depor você não vai.

Volte em Junho.

Eu não sei o que você faria. Mas sei o que fiz. Saí. Para nunca mais voltar. Quem quiser meu depoimento que venha atrás de mim em viatura policial com sirene ligada. Nào me mande cartas. Quem quiser meu depoimento faça de um tudo mas náo me mande a tal carta, notificaçao, intimação, náo me lembro o nome da correspondência que eu recebi; afirmo, sob juramento, que não será respondida com o meu deslocamento obediente. A partir desta desfeita, desloco-me somente para responder a cartas de amor.

Senhores, este fato teve lugar em 27 de Outubro, na 69a Vara de Conciliação e Julgamento, e é real. Antes fosse ficção. Por três vezes fui ao prédio judicial da rua do Lavradio para contribuir para a apuração de fatos; por três vezes fui tratada como se meu tempo nada valesse, como se minha ausência ou presença não fizesse a menor diferença no processo, ou por outra: como se a autora da ação, iniciada em 2009, fosse uma marionete na mão do tão decantado Estado Democrático de Direito. Trata-se de uma honesta trabalhadora, cumpridora de seus deveres, pontual e assídua.

O maior valor que temos é o nosso tempo. Esse sim é nosso euro, nosso real, nosso dólar. É nossa moeda de troca; bem usado, o tempo garante uma existência melhor.
Mau usado, afundamo-nos. A juíza náo sabe quanta coisa eu tinha para fazer por mim, pelos meus colaboradores, pelos clientes, pelos meus filhos, e náo fiz. Joguei tempo fora.

Não. A juíza náo pensou na autora da açao, nas testemunhas, nas advogadas, nas prepostas. Pensou somente na festa da escrivã.

Aliás, sra. Escrivã. Sua FESTA custou horas do nosso valioso tempo e mais alguns meses para a trabalhadora requerente dos serviços estatais. Constitucionalmente garantidos.

Tomara que tenha sido muito boa.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A menina chinesa

China
Brasil
África


Um minuto de silêncio por Yue Yue




Todos vimos na TV, atônitos, as cenas do atropelamento da menina chinesa, que vagava desacompanhada por uma via pública. Foi atingida por uma van, atingida por um segundo carro, e foi atropelada novamente como se fosse uma boneca sem vida. Dezoito pessoas passaram a seu lado, e a ignoraram, cruel e friamente. Estava sozinha no mundo dos inimigos. Um lixeiro gritOU por ajuda, e foi também ignorado. A menina foi levada em coma para o hospital e náo resistiu.

Tinha dois anos e chamava-se Yue Yue.

A máe náo estava por perto, e levou vinte minutos para ser localizada. O pai apareceu chorando na TV, desesperado.

Comenta-se pela mídia: que gente má. Que raça terrível, essa dos chineses. Matavam meninas desde a antiguidade. Cometem atrocidades, e atualmente escolhem nos hospitais quais receberáo atendimento. Náo atendem portadores de HIV, podem contaminar os demais pacientes, por exemplo.

Os chineses passaram pela pequena, minúscula criatura, ferida em estado gravíssimo, sem olhar duas vezes. O brasileiro chamaria uma ambulância, faria um escândalo. Somos solidários, e ficaríamos a seu lado até que os bombeiros, nossos maravilhosos bombeiros, a socorressem. Certa disso. Aqui no Brasil esta menina náo teria ficado no cháo, como ficou. Ok. Nossa solidariedade finda aí.

Sim, façamos uma pausa. Somos assim tão superiores? Quantas crianças famintas, doentes, e abandonadas vagam pelas nossas ruas? Frio, sujeira, pedófilos, a tudo expostas? Qual atitude tomamos? Chamamos a SAMU para socorrer o menino negro e pobre que grita de dor? Talvez, se em local seguro. Lembremos que a polícia matou Juan a tiros, a queima roupa, e jogou seu corpo no rio. Polícia brasileira. Lembremos do Nardoni, que jogou a própria filha pela janela.

As imagens do atropelamento chocam.

Ë menina muito pequena, parece uma boneca, de pele clara, e aparentemente bem vestida. Temos tribos inteiras na África a morrer de fome, de sede, de Aids, e náo nos chocamos mais com o sofrimento destes inocentes.
Temos milhares de crianças Brasil adentro, a secar de fome, e náo corremos para acudí-los. E muito mais que dezoito cidadáos passam por elas todos dias.

Náo falemos em iminência da situaçao. Toda vida em risco exige urgência.
Sempre podemos dar uma desculpa para que um mal pareça maior e amenize os demais atos. Focamos no que tem mais impacto, e os atos menores parecem menos importantes. Náo são.

Somos todos uma raça de gente cruel. Náo só os chineses.

Alguns cruéis pela força, outros pela mente, outros por armas de fogo, outros por armas químicas, outros por corrupçao, outros por violência. A esmagadora maioria é cruel por omissáo.

Ao chorarmos pela chinesa, choremos por todas as demais. Talvez esse anjo de olhos puxados tenha vindo ao mundo unicamente para esse sacrifício. Para que chocados e estarrecidos, mudemos de rota e paremos para acudir o próximo que sofre. A vida humana TEM que valer mais do que vale hoje, muito, muito mais.

Ao julgarmos os motoristas criminosos e os 18 transeuntes assassinos também, julguemos os homens maus de todos os povos, e de todos os Governos, que tiram a comida das crianças, e enriquecem com a sua miséria. Que negam-lhes socorro diariamente nos hospitais sem médicos e sem equipamentos. Sem remédios.

Senhores, os internautas estão aí afirmando que os chineses náo valem nada mesmo. Mas nós, brasileiros, também estamos precisando valer mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Medianeras

Mi Buenos Aires querido
Si


Encontro marcado com os argentinos



Medianera é a parede lateral de um prédio, chamada de parede cega, habitualmente náo tem janelas e por vezes há propaganda.


Caríssimos, temos um encontro, e é em Buenos Aires.
Problema para alguns, já que cariocas e argentinos estranham-se. Futebol, talvez.

Para mim, náo. Detesto brigas de futebol e adoro Buenos Aires. Já desembarquei em Ezeiza com camisa 10 da seleçao e fui muitíssimo bem recebida. Efusivos olás.

Eles náo nos odeiam, para nada, como dizem. Somos muy amigos.

E o argentino é uma criatura especial - politizado, apaixonado, sôfrego, orgulhoso, brigáo. Lutam pelos seus brios, e pelos alheios. Opinam sem cerimônia uns sobre a vida dos outros, como terapia coletiva e pública, questionam-se mutuamente.

São críticos, reclamóes, e...na maioria das vezes tem razáo.

Este filme é bem isto. O casal Martin e Mariana náo se conhece. Sáo fóbicos, fumantes, sofridos, bolas baixas, reclamam da vida, da economia, da arquitetura sufocante, das contrariedades urbanas, e... tem razáo. As cidades de hoje náo convidam ao romance, e ainda o dificultam. Há poucos janelóes, poucas varandas, poucas flores. Poucos momentos de paz, e muitos desencontros. O ambiente moderno, afirmam, sufoca e angustia, e incentiva o afastamento dos indivíduos. Tem razão, estáo afastados. Cruzam um pelo outro mas náo se vêem.

A tela mostra uma Buenos Aires difícil de reconhecer. Muito cimento, muito prédio antigo, muito trânsito, nenhum apelo portenho. Muito isolamento, cada um no seu micro apartamento, numa independência que mais parece solidáo. Raros diálogos, ouvimos o pensamento dos personagens, suas lástimas.

O filme, apesar da cor cinza, e do teor deprê, tem tiradas ótimas, pitadas de ironia, toques de humor, e vai-se levando a película como fazemos com a vida - buscando o próximo dia com uma certa esperança, ainda que tímida, pequena, escondida, mais semelhante a uma provocaçao com o destino do que propriamente uma esperança.

Entre cigarro e outro, entre trabalho e mais trabalho, entre chat e outro, entre decepcáo e outra, o casal fóbico resolve abrir uma janela na medianera e deixar o ar entrar. Deixar arejar, entrar a luz do dia.

Cinza, mas luz.

Eu curti. No meio de vida moderna, autômata e repetitiva, temos que abrir uma janela a marretadas e olhar para fora. Para as ruas cheias, com pedestres e ciclistas e motoristas indiferentes, que náo te olham, náo te vêem, mas que ainda assim, é preciso olhar. Inconformar-se com esta cegueira geral.

Um dia acharemos o que procuramos. É preciso firmar a vista; tal qual no livro de Wally. É difícil, está misturado na multidão, mas tem lá o Wally com seu cãozinho, na cidade, e o encontraremos, ou ao grande amor de nossa vida. E correremos para ele, parceiro ideal para uma Cumparsita.

Martin (Javier Drolas) y Mariana (Pilar López de Ayala), portenhos, solitários universais - Premiados no Festival de Gramado e no de Toulouse

domingo, 16 de outubro de 2011

Chopin e Sand

Rio,
Leblon
O que seria do Rio sem o Leblon?
E o que teria sido de Chopin,
sem Sand?


Lindo Chopin, Linda Sand

Eu amo Chopin.
Composiçoes tristonhas, lentas, fortes, frenéticas.
Acompanhou-me infância adentro e adolescência afora nas aulas de ballet - todos, absolutamente todos os exercícios de barra eram executados sob o ritmo de Chopin.
Adágios, adágios, e mais adágios. Hoje reconheço que tive a honra de ter Chopin em meus ouvidos e pés, durante muitos anos.

Sabido que fôra um gênio, sobrenatural seu dom. Incorporava o som de suas composiçoes; era o corpo de suas partituras. Isso sabe-se, sua obra é legado universal, e espera-se e perdoa-se em um gênio, sua extravagância. Sua excentricidade, suas loucuras e desvarios fazem parte de sua personalidade, e caracterizam-no ainda mais. Chopin náo havia de ser diferente.

O espetáculo mostra o romance entre Chopin e George Sand, pseudônimo da condessa Aurora Dupin. Outro gênio, escritora genial em sua irreverência e ousadia.
Teríamos portanto, a bomba e o estopim. Dois gênios juntos sob o mesmo teto. Explosáo.

Nada disso, gente. Romance sem palavras é um espetáculo suave, profundo, cálido.
Doloroso sob vários aspectos. Vi no palco do Teatro um casal com problemas de gente comum, problemas bem atuais inclusive - o homem que é egoísta, infantil, voluntarioso, imperativo, estúpido. E a mulher que é doce, carinhosa, condescendente, cuidadosa, amorosa, rejeitada e explorada.
Lindos, Françoise Fourton e Marcelo Nogueira
Foto:Divulgação

Sand podia ser corajosa da porta para fora. Da porta para dentro, todos os seus atos eram para atender, prover, cuidar e sustentar a saúde e a criaçao da obra de Chopin. Mecenas, talvez, apaixonada, certamente, ela escreve dia e noite, como uma operária da literatura, para manter seu reino. Chopin teve ao seu lado, a vida tranquila que sua saúde péssima e seu coraçao duro exigiam.

Sand fez de tudo por este homem. Poucas vezes recebeu dele carinho ou amor. Companheiros de boêmia, sim, mas de cama, náo. Chopin a rejeitou por anos, vivendo sob o mesmo teto.

E ela, como tantas, seguiu. Até que um dia, um belo dia, saturada, encerra o assunto, liberta-se, e seguem, cada um o seu caminho.

O texto da despedida é de rachar o coraçao. O amor é triste, tristíssimo quando acaba. E náo adianta voltar sobre o que restou, Sand afirma sabiamente. Náo adianta mesmo. E escrever outro fim para o romance também náo foi possível para a escritora. As histórias reais náo sáo escritas pelos humanos, talvez por deuses temperamentais.

Temos entáo uma história linda, um Marcelo Noqueira ótimo, como Chopin, e uma Françoise Fourton divina. Futuquei na Wikipedia. Françoise tem mais idade do que parece, náo cometerei a deselegância de repetir dados que nem sei se sáo confiáveis, mas se sáo verdadeiros, esta mulher é um fenômeno. Corpo, rosto, mãos, voz, movimentos, trejeitos, brilho no olhar, nada lembra a idade afirmada pelo site - passa por uma mulher de trinta anos com a maior tranquilidade. E dá um show no palco. Grande atriz, envolve o espectador com sua escritora/condessa/apaixonada/ dedicada/ cúmplice/incansável George Sand, e esquecemos do mundo diante do mundo que criou para seu Chopin. Compreendemos perfeitamente o tamanho do seu amor.

Deste espetáculo tirei duas conclusóes: 1. Chopin era insuportável. Fosse marido meu, iria compor ao relento e morreria tísico. Um chato de primeira. Eternamente reclamando, insatisfeito, inseguro, irritado, perdulário, egocêntrico e desprovido de apetite sexual.
2. Nós, mulheres, somos responsáveis pela maioria das maravilhas do mundo. Ou as criamos nós mesmas, ou possibilitamos aos machos que as criem. Nossa estrutura emocional permite ao macho que construa e que mova montanhas. Eles náo sabem disso. Sem George Sand, Chopin náo teria composto um dó ré mi sequer. Comeu, bebeu, dormiu, foi tratado, alimentado, medicado, protegido e orientado por Sand, durante dez anos, tempo em que compôs compulsivamente, e garantiu, queridos, seu lugar de honra nos salóes de Paris.

E há uma terceira conclusáo, entre pergunta e conclusáo - como podemos viver mais um dia sem o piano de Linda Bustani? Ouçam, caríssimos, e voem. Ela é a terceira personagem, a alma de Chopin no palco, e toca durante duas horas suas obras mais especiais. É a presença do artista, em forma física, e a certeza de que sua música existe e corre em seus dedos. Dedos? Asas, asas leves, sutis, velozes, sem peso, como devem ser as asas dos anjos.

Linda Bustani, premiada pianista, responsável por trazer a alma de Chopin ao palco
Foto:Divulgaçao

sábado, 8 de outubro de 2011

Dois Joãos e um Paulo

Leme,
Leste
Oeste

Cheguei, fiquei,
Vieste

A entrada da La Fiorentina, com a estátua de Ary Barroso


João querido entrou no meu caminho,
e eu segui com ele pela noite do Rio.

Paramos aqui, olhamos ali,
para onde vamos, João,
não importa onde, vamos que vamos, é sempre bom.

- Vamos na Dona Ana comer aquele pão?
Não

- Vamos entáo para a Lapa?
Náo, Nêga, hoje náo.

Fui com João para o Leme,
aterrisamos numa cantina
o cenário real da Fiorentina.

E não é que tinha
Outro João na pizzaria?

E tinha o Paulo,
o Paulo Roberto.
E eis que pensei - dois Joãos e um Paulo Roberto.
isto é que é conversa, e para mais de metro.

Neste recanto onde estávamos
fomos visitados por famosos do momento
e há famosos por todos os lados.
Cumprimentamos.
Fomos também cumprimentados.

Veio a conversa, veio a pizza, veio a salada inventada.
Veio a vida cantada e contada e lembrada

Vieram os feitos os traços seguidos
Os caminhos
Momentos passagens
Lugares
tempos
palcos
atores cantores
entrevistas
produtores
espetáculos

Vieram opiniões
nostalgias.
vitórias, açúcares, e cirurgias

Vieram as palavras, sáo homens de palavra:
um é do Rádio, dois do Teatro
um das notícias, os outros dos atos.

companheiros da letra falada escrita encantada
letra interpretada
companheiros de dramaturgos, compositores,
guerreiros brasileiros.

Pensei - é boa essa vida

entre falas e risos

e amigos em pratos em copos vizinhos
amigos em amplos abraços.
Todos protagonistas nesta cena,
Privativo roteiro, improviso de texto,
direção, divulgação, fotos, fatos.

A noite é grande nesta taberna do Leme.
Ary nos recebe na porta,
nossa, Ary, que honra, até breve

Vão as horas, passam leves
céleres como as palavras do cronista que se preze,
mais enxutas que um livro
e mais fáceis que a poesia.

Palavras e horas leves e ricas
passaram belas as horas por esta mesa,
passou a noite pela cantina.

Partimos e despedimo-nos de Ary,
que silencioso náo responde.
Sentado fica e nos observa de longe.

- E penso que sou sortuda - estive à mesa com dois joãos e um paulo.
Saboreei cada pedaço.
Sim, sou sortuda,
e boa de garfo

Nota - um beijo para Mônica, à esquerda de Paulo, e à frente de seu petit gateau, apreciadora de doces e perfumes, coisas ótimas desta vida

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Daniel Boaventura, bem aventurado

Rio
New York
Detroit
Nápoli
Terra

Daniel Boaventura, no espetáculo Songs 4 You, apresentação única no Teatro Oi Casa Grande


Português claro? Achava meio over.
Muita empostação e muita pronúncia correta de idiomas, como a querer impressionar. Bonito, uma beleza assim correta por demais, como retocada. Confessêmos, a Tv não reservou-lhe os melhores papéis. Professor de malhação e cantor-investigador de cantina italiana. Sucesso em musicais, como Evita, e A bela e a Fera, Fantasma da Ópera, mas, vamos lá, são muitos os bem aventurados no ramo. Somos o terceiro país do mundo em musicais, um indicador extraordinário para o nosso Brasil, um país com tantos problemas de educação e cultura.

Mas meu amor é meu amor e sempre tem razão. Disse: "- Vá, Nêga. Daniel canta muito." Obediente que sou, fui ver e ouvir Daniel Boaventura no Leblon.

Nada como ir. Ir para experimentar, ir para crer, ir para ver e poder dizer. Daniel Boaventura é o máximo.

Acompanhado por músicos fantásticos, com destaque para o maestro e pianista Ricardo Leão, ele oferece um show inesquecível. Abre a noite com a imbatível Fly me to the moon. Metais de primeira. Backing vocals exatos, fazendo aquela segunda voz que é um aconchego para a estrela, um acabamento, um requinte. E ele avança palco a dentro arrancando gritos e aplausos: o rapaz, é, de fato, belo. Pinta de bom moço, de galâ bem intencionado. Prossegue cantando She, e eu derreti.

O cantor é formal com seu público, distintamente carinhoso. Tem um sotaque, ainda, longe, da Bahia, misturado com um sotaque paulista, e o resultado é uma voz que canta mesmo quanto não canta. Dirige-se ao seu público com gentileza, com palavras bonitas de nossa língua bonita. Comporta-se como um gentleman, formal, cordial, terno, gravata, colete. Seu momento mais corpo a corpo, digamos, é no dueto com a vocalista Cacau Gomes, um show à parte essa moça. Cantaram a música tema de O fantasma da ópera, a romântica "- That´s all I ask of you", suaves, ternos, habéis. Olho no olho, voz na voz, nota na nota, inglês no inglês. Voz que vai, que vem, que alteia, distancia, retorna, aproxima, pede, atende. As vozes dançavam, e os dois também: ensaiaram um cheek to cheek na maior elegância.

Champagne e Amore excusa mi. Mambo italiano. New York, Hello Detroit, e vamos que vamos, cada música melhor que a outra, cada arranjo melhor que o outro, cada idioma melhor cantado que o outro. Cadeiras dançavam. Ele vai e volta para um bis imprevisível - Barry White. Sua voz grave, de barítono, balança, dança, dançamos todos, todos em pé, disco time, era dia de festa.

Temos sim um cantor de primeira grandeza, sangue brasileiro e nível internacional. Pode gravar com Tony Bennet, com Seal, com Andrea Boccelli, ou com qualquer monstro da voz, em qualquer estilo. Será um orgulho para nossa música. Se eu pudesse opinar: seu lugar é no palco, ao vivo, cantando a plenos pulmões. Cantar, caríssimos, é para quem pode, e ele pode e deve.

Se este mundo for justo, será aplaudido e reconhecido pelas melhores platéias do planeta - sua voz é grandiosa. É exímio, e interpreta com sentimento e precisão as mais lindas músicas de todos os tempos. Ouso dizer: sua voz tem o brilho de um Cauby, o swing de um Simonal e a potência de um Pavarotti.

Como não bastasse, tem a beleza de um Daniel Boaventura.

Nota: cumprimentos aos responsáveis técnicos pela qualidade de som do teatro, limpo e cristalino

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Miriam Leitão e suas notícias

Talk Show
Miriam Leitão e Carlos Sardenberg

20 anos de CBN

Miriam Leitão, especialista, jornalista, assumidade

Carlos Sardenberg, político, jornalista


Caríssimos. Pagamos uma fortuna por uma caipirinha mas não vamos a um talk show grátis. Tema do talk? O "faz-me-rir". O "dindin", nada menos que a Economia do Brasil, nos últimos 20 anos. Nada menos que Miriam Leitão e Carlos Sardenberg a discutir, agradavelmente, sobre assuntos que pesam no no bolso do brasileiro. Mas o talk show estava vazio. O brasileiro não gosta de talks, prefere sings or dances. E mais: torce o nariz para o que é público ou gratuito. Gosta de dizer que pagou caro. Gosta do que é caro, acha que é melhor, mais importante, tem mais peso. Devemos ter complexo de inferioridade, só pode ser.

Sou do contra. Fui.

Gosto de Economia, que está muito mais para a sociologia do que para finanças. Está mais para o comportamento do homem do que para seus dinheiros no banco, e se pensarmos bem, é o comportamento do indíviduo que define seu saldo bancário. E é o comportamento dos indivíduos, coletivamente, que define o status econômico da nação.

Fui ver os jornalistas. Sardenberg, que já esteve no Governo Sarney, foi mais comedido, mais reticente. Usou de piadas, de pouca informação técnica, poucos conceitos.

Mas Miriam não. Firme, fundamentada, convincente, taxativa.

A jornalista sabe tudo de política, história, economia, e mostra a cada frase fatos e fatos e atos com datas, causas, consequências, possibilidades, justificativas. Tem uma base de dados impecavelmente organizada na sua cabeça, e o conhecimento adquirido em mais de trinta anos de carreira deve estar todo classificado, etiquetado e linkado. Um assunto puxa o outro com propriedade, fluência e precisão. Orgulho para a classe feminina. Orgulho para o Jornalismo e a Economia brasileira. Unânimes os espectadores - que mulher inteligente, que mulher culta, que mulher poderosa, era o que se ouvia pela platéia, corredores, foyer, banheiros. Nada substitue a qualidade da informação. Fascina.

O lado bom é esse. O lado ruim é que as notícias são ruins, e devemos acreditar, pois quem está falando é uma assumidade do assunto.

Miriam afirma que o crescimento brasileiro dos últimos 20 anos deu-se sem avanços educacionais, sem preocupações com a questão ambiental e com concentração de Renda. Tudo errado, portanto. Prossegue que não acredita no Governo, pois há muitas pessoas de doutrinas diferentes, sem engajamento à causa da educação. Que o brasileiro estuda pouco, muito pouco, enquanto o mundo estuda muito. Que as metas do governo Dilma para educação são mínimas, e promovem pouca ou nenhuma ação neste sentido.

E que sem educação não teremos qualidade em nosso crescimento e nem aumento de renda per capita.

E assim não teremos economia estável, ponto de partida para projetos de desenvolvimento. Não haverá base para investimentos, e não há planejamento de longo prazo.

Pior: nossa democracia está ameaçada pela corrupção. A corrupção traz a descrença do jovem no sistema democrático, e isto é uma ameaça real `a liberdade política que temos hoje. Pergunta-se até quanto vai-se suportar a corrupção em nome da democracia.

Silêncio. Aplausos.

E ela fecha, respondendo a uma pergunta da platéia. "- O que diria a um jovem de 20 anos?"

"- Sonhe alto, trabalhe duro, e estude muito". Sardenberg emenda: "- e poupe. Gaste menos do que ganhe, e aplique seu dinheiro".

Senhores políticos, sigam estes conselhos, simples como manda a boa estratégia,e as notícias para os próximos 20 anos serão melhores.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Rei Leão

O Rei
O Leão
Culpado
Castigado
Libertado



É preciso viver, e viver não é brincadeira não.

O Rei Leão que o diga. Sua história é bem dura para um conto infantil.

A trama reúne traição, morte, culpa, condenação, e por fim, a vitória.

É o seguinte: O Rei, Musafa, morre em uma emboscada, vítima de seu próprio irmão, Ascar. Esse malvado incute no herdeiro legítimo - Simba - culpa pela morte do pai. Convence o sobrinho de que foi ele, o único filho, o responsável pela tragédia e que somente o exílio evitaria um desgosto ainda maior à Rainha Leoa. Anos passados, o Leãozinho no exílio, o Rei Cruel no poder.
Mas há fofocas também no reino das savanas africanas, e o Leãozinho descobre a verdade. Volta, grande, belo, forte, liberto de sua culpa, para lutar e assumir seu trono. Vence. O bem triunfa, em linda canção e coreografia, e todos nós nos sentimos vitoriosos e vingados.

Uma historinha difícil de contar para crianças pequenas. A idèia da morte, ganância e traição bem definidas no enredo. Os espectadores de menor idade precisam de muita explicação, e as mummys ficam como tradutoras. As palavras usadas nos diálogos reforçam a idéia de que crianças com mais de 7 anos entenderão melhor - os bichos bons utilizam todo um linguajar real com suas reverências e formalidades, e os bichos malvados, os deboches e ironias.
Para levantar o astral, o exílio é alegre. Os párias da sociedade, o porco e o cachorro, são hilários, os atores convencem, e a vida é animada à margem da sociedade.
Curioso isso - o exílio é mais alegre que a vida na corte, há união, amizade, cantorias, risos. Praticam o HAKUNA MATATA, que quer dizer SEM PROBLEMA, o velho lema NO STRESS ou BE HAPPY. Adorei. Estou praticando desde então. Vem um problema, eu ignoro. Percebi que os expulsos do reino (e eu) vivem assim muito melhor. Seguirei.

O leãozinho volta então um leãozão. Livre da culpa, fortalecido, enfrenta o tio mau, domina a situação e reina. O Reino de Simba.

As crianças entenderão mais tarde. O mundo adulto é um jogo de culpa - castigo - perdão. Começo, recomeço, conquista, reconquista. Acusações. Julgamentos, condenações. Liberdades. E não há macaquinhos para cochichar que você é inocente. Que você, criatura selvagem, é livre, não errou, não pecou, e pode ser feliz. É preciso encontrar, por nossos próprios e falíveis meios, a aprovação e a defesa de nossos atos. E a reviravolta, a conquista do reino, depende exatamente disso. Empurrar para longe os inimigos íntimos. Resistir às tramóias invisíveis. Matar seu predador, a cada dia.

Não devo, mas vou dizer. Faltou. Faltou mais capricho. Para um público exigente, os figurinos parecem incompletos, faltam acessórios para as patas, fundamentais para a caracterização de animais; a caracterização não corresponde ao imaginário infantil, e o leão jovem foi confundido, por vários infantos, com um macaco. Sua movimentação não é a de um felino.

A atriz que faz o macaco é a melhor. Disparado. Potência de voz, macaquices, movimenta-se rápida e desengonçada como os macaquinhos mais levados. É acrobata e se pendura em um cipó como ninguém. Mas ela conspira contra a gramática:-" Que os deuses o proteja, que os bons ventos o traga " - bem alto, peito estufado. E apunhala de novo o português, no momento agradecimento - "Tem três pessoas que foram inevitáveis para a realização desta peça."
Senhora, senhorita, d. Macaca: as pessoas são imprescindíveis ou fundamentais. As situações é que são inevitáveis. Desculpe, não deu, pronto falei.

Falemos da parte que agradou muito mães, avós, babás. É a estréia do galã Cassio Reis como empresário / produtor de teatro infantil e ele estava presente, lindo e louro, com o filho Noah. Um mimo para os olhos, um rapaz jovem, empreendedor, acompanhado do filho. Sem dúvida, sua subida ao palco ofuscou os atores. O bonito agradeceu educadíssimo a presença de todos, e explicou: "Escolhi esta peça porque ela mostra o valor da fé, do que a gente traz de bom no coração. Prova que o amor vence no final".

Tomara, Cassio, tomara.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Divinas, e ponto

Rival,
Revival,
Rive Gâuche

O espetáculo Divinas Divas, sob direção de Berta Loran

Elas são Divinas.
Divinas divas, divinas damas, divinas deusas.
Divinas, ou divinos, e ponto.

Os historiadores dizem que os deuses não tem um sexo. De fato, a maioria dos deuses da mitologia grega (e as entidades da umbanda também) podem apresentar-se sob as formas masculina e feminina, conforme a necessidade da situação.

Aí está. Jane di Castro nasceu Luiz. Rogeria, Astolfo. Kamille, Carlos.

Há anos, décadas, travestem-se com o maior orgulho e coragem. Épocas menos covardes, os homofóbicos (náo havia esse termo), mas enfim, eram homofóbicos e queriam surrar travestis. Sabe-se lá porquê, alguma tara mal resolvida, talvez. Davam-se mal: as divinas os enfrentavam na mão mesmo, e mão grande, coisa de homem para homem, e não havia Orgulho Gay para defendê-las. Não estavam ainda garantidos os tais direitos humanos, e o tal do direito à opção sexual, como se alguém pudesse não tê-lo.

Hoje desfrutam do reconhecimento conquistado através de anos de trabalho sério. Foram aplaudidas mundo afora, e temos a honra de tê-las entre nós, dando o seu recado. Apresentam-se neste espetáculo como deslumbrantes senhoras elegantes. Exageradas, senão não teria graça, pero no mucho, tem bom gosto, tem charme, e distinção. Vestidos em seda, renda, esvoaçantes, longos. Meias finíssímas, jóias. Deixam o aroma de perfume no ar.


Vive la difference.

Em uma sociedade de culto à mulher melancia e outras criaturas, a Sra. Jane di Castro é um exemplo de recato. Sim, e de altivez, de dignidade. Quem dera que estas moças de barriga de fora e piercing pendurado sobre o ventre livre tivessem seu porte.

É fato - as Divinas Divas representam com perfeição os modelos de feminilidade, raros hoje em dia.
Representam a figura feminina, o gostar de ser mulher, se balançar cabelo e pisar leve no salto. Faz falta. A graciosidade feminina enfeita o ambiente. A mulher quis se equiparar ao homem, mas confundiu-se em vários pontos.

Elas náo, não estáo confusas em nada, nadica de nada. Em depoimentos no palco afirmam que sáo homens sim E que adoram se vestir de mulher. E que adoram outros homens. Aplausos.

Além da presença esfuziante nos palcos, além da estética, elas tem talento. Cantam, em vários idiomas e ritmos. Abusam da voz híbrida e possante, afinadíssimas. Desfilam o melhor da música internacional, Nigth and day, Je souvrivais, La vie en Rose, I´ve got you under my skin. Arrepiam com Emoçõs, do Roberto. Rogeria, um furacão. Um arraso, é magnética. Jane cantando salsa levanta um morto do caixão, sairá feliz e sacudido, e a tirará para dançar.

Temos as comediantes. Kamille entra em cena caracterizada de faxineira. Horrorosa e hilária, em nada se assemelhará à chiquérrima senhora que conheceremos, em trajes de Gabbana. É uma atriz de primeira.
E Fujika de Halliway, mignon, cintura de pilão, numa dublagem satírica de ópera. De chorar de rir.
Eloína, que anos a fio apresentou os sarados leopardos, é um doce. Meiga. Suave.

Abaixo qualquer preconceiro, please. O marido de Jane, sentou-se ao meu lado. Um senhor, discreto, simpático, educado. Poderia ser um tio, parente da família. Palmas para ele. Vive seu amor, que já dura 40 anos, sem usar crachá. Não precisa. O que precisa é o carinho que vi em seus olhos, em direçao a Divina Jane - ah, esse carinho vi nos olhos de poucos, pouquíssimos homens ao olharem suas companheiras.

Enquanto assisto-as, encantada, consolo-me. O tempo passa, a vida passa, e o talento fica. O talento, na verdade, amadurece, fica mais saboroso, mais doce. Como as frutas.

Saí motivada. Saí feliz. São pessoas de fibra, de personalidade, de força. E tem suavidade para cantar com todo amor no coração, e coração não se traveste. Coração e alma, nestas senhoras, estão à vista. Sem maquiagem.

Esta que vos fala e Kamille

Com a esfuziante Jane di Castro

Honrada pela aproximação com a musa, Rogéria, cheirosíssima.

Com a doce, dulcíssima Eloína